Mamdani diz que governo federal abdicou de regular a IA nos EUA
Em evento do AI Now Institute, o prefeito de Nova York criticou a falta de lei federal sobre IA e pediu que moradores reajam, citando a proibição nas escolas.

O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, disse que o governo federal dos Estados Unidos abdicou de legislar sobre inteligência artificial e pediu que os nova-iorquinos reajam. A fala foi feita na noite desta segunda-feira (19), segundo reportagem de Rebecca Bellan publicada pelo TechCrunch, durante um evento chamado The People's AI Assembly, no Webster Hall, em Manhattan.
O encontro foi organizado pelo AI Now Institute, um centro de pesquisa que estuda os efeitos sociais da IA, e a atriz e ativista Ilana Glazer, conhecida pela série "Broad City", conduziu a conversa com o prefeito. Não se trata de um anúncio de lei nova: foi um discurso político, com críticas diretas ao modo como a tecnologia vem sendo tratada em Washington e uma convocação para que a população pressione empresas e autoridades locais.
O que o prefeito disse no evento
A mensagem central de Mamdani foi que ninguém deveria aceitar a ideia de que a IA é inevitável no trabalho, na cabeça das crianças e na dignidade das pessoas. Ele pediu que os moradores retomem o controle e afirmou que nada precisa ser inevitável. Na avaliação dele, o discurso de que a tecnologia chegará de qualquer jeito serve para desarmar a discussão antes que ela comece.
Ele também criticou o que chamou de abdicação completa da lei federal sobre IA e disse que, sem regras nacionais, as cidades acabam agindo sozinhas. Segundo a reportagem, o prefeito afirmou que o debate nacional é enquadrado como uma corrida armamentista com a China, o que empurra para segundo plano as preocupações humanistas, como emprego, educação e segurança das pessoas.
Sobre as empresas do setor, Mamdani defendeu que as autoridades cobrem responsabilidade delas. Ele rebateu dois argumentos que, na visão dele, servem para fugir da prestação de contas: o de que a IA seria infalível e o de que apenas quem a desenvolve teria condições de regulá-la. O prefeito comparou essas falas às que o Facebook usou em 2008 e disse que elas podem colocar em risco as avaliações de mercado em ofertas de ações, em referência à expectativa de que algumas dessas empresas abram capital.
As medidas que Nova York já tomou
Mamdani citou ações da própria prefeitura como exemplo de que governos locais podem agir. No mês passado, ele determinou a proibição do uso de IA nas escolas de ensino fundamental (as "elementary" e "middle schools" americanas). A medida foi coberta aqui no caso da moratória de IA generativa nas escolas públicas de Nova York. Glazer, que é mãe, disse que a pressão para levar IA às salas de aula a deixa nervosa.
No verão americano, o prefeito também propôs que proprietários, corretores e plataformas de imóveis sejam obrigados a avisar quando fotos ou vídeos de anúncios forem gerados por IA. O objetivo é proteger as pessoas do que ele chama de "house-phishing", isto é, anúncios enganosos que usam imagens sintéticas para atrair inquilinos e compradores. É um exemplo concreto de regra pequena e específica, que não depende de uma lei federal ampla para existir.
O argumento sobre os riscos e o contexto federal
Em outro ponto, Mamdani citou o ataque militar americano a uma escola no Irã, em fevereiro, que matou mais de 150 pessoas, entre elas pelo menos 123 crianças. De acordo com a reportagem, autoridades envolvidas na investigação interna do Pentágono disseram à Bloomberg que a dependência excessiva de IA na escolha de alvos foi um dos fatores. Foi o exemplo mais pesado que o prefeito usou para sustentar que a tecnologia exige freios e responsabilização.
A reportagem lembra ainda que a Força-Tarefa de Superinteligência do presidente Donald Trump, anunciada no início de outubro, na prática permite que as grandes empresas de IA se autorregulem, em vez de impor novas restrições federais. Nós detalhamos a estrutura no texto sobre a Super Intelligence Force e o czar de IA Jay Clayton. Para Mamdani, depois do governo atual o país precisará de um arcabouço muito diferente para discutir a IA e para responsabilizar quem a desenvolve.
O contexto de mercado também aparece no texto: a Anthropic deve abrir capital ainda neste ano, e a OpenAI já disse que fará o mesmo em 2027. Funcionários que denunciaram problemas na Anthropic, no Google DeepMind e na OpenAI alertaram que a IA poderia levar à extinção humana, um tipo de aviso que alimenta o discurso de quem pede regras mais duras.
O que é fato e o que é posição política
Vale separar as camadas. São fatos reportados: o evento aconteceu, o prefeito disse o que está citado, a proibição nas escolas foi ordenada em setembro e a proposta sobre anúncios imobiliários foi apresentada no verão. É posição política, e não dado medido, a avaliação de que o governo federal abdicou de regular a IA. Há quem defenda justamente o contrário, que regras estaduais e municipais criam um mosaico caro de cumprir e que a prioridade deveria ser a competitividade americana. O próprio tema da corrida com a China, criticado por Mamdani, é o argumento mais usado por quem defende menos regras.
Também não há, na reportagem, nenhum projeto de lei novo ou ordem executiva anunciada nessa noite. O efeito prático do discurso é de pressão e de pauta: ele indica que a prefeitura da maior cidade americana pretende tratar a IA como tema de governo local, e não apenas como assunto de Washington.
Por que isso importa para você
Quem usa IA para trabalhar ou empreender no Brasil pode achar que uma discussão de prefeitura em Nova York está distante. Mas o desenho de regras nos Estados Unidos costuma chegar depressa a quem usa as mesmas ferramentas, porque as empresas que fazem os modelos e as plataformas estão lá. Exigir aviso de imagem gerada por IA em anúncios, por exemplo, é o tipo de regra que depois aparece em plataformas globais e passa a valer para todo mundo que vende pela internet.
O caso também mostra um padrão que vale acompanhar aqui: quando falta lei nacional, cidades e estados tomam a frente. No Brasil, o tema já tem movimento no Congresso, e explicamos o que está em jogo no guia sobre a lei de IA no Brasil e o que muda para quem usa. No período eleitoral, a Justiça Eleitoral também já impôs limites próprios, como mostramos na cobertura da restrição do TSE ao conteúdo com IA na reta final das eleições.
Para quem produz conteúdo, vende serviços ou usa agentes no dia a dia, a lição prática é simples. Deixe claro quando uma imagem, um vídeo ou um texto foi feito com IA, principalmente em anúncio e em material que influencia uma compra. Essa transparência é barata hoje e tende a virar obrigação amanhã. Quem já se acostumou a avisar sai na frente quando a regra chegar, e evita ser confundido com golpe, tema que cresceu junto com a tecnologia, como no caso do golpe de robôs de negociação por IA que lesou investidores.
O que observar daqui para frente
O ponto a acompanhar é se o discurso vira ato: se a prefeitura de Nova York apresentará novas regras sobre IA, se a Câmara Municipal votará a proposta de aviso em anúncios imobiliários e como o governo federal responderá à pressão. Também vale observar se outras cidades americanas copiarão a proibição nas escolas, e se as empresas de IA, às vésperas de abrir capital, passarão a tratar a regulação local como risco relevante nos documentos que entregam a investidores.
Reportagem de Rebecca Bellan no TechCrunch, publicada em 19 de outubro de 2026. O Portal da AI resumiu e contextualizou o conteúdo; as citações e números são da fonte.
Fonte original
TechCrunch
techcrunch.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.
