Ex-chefe da FTC diz que leis dos EUA já bastam para regular gigantes de IA
Lina Khan afirmou à NPR que leis de concorrência, proteção ao consumidor e responsabilidade por produto já se aplicam a OpenAI, Anthropic e Google.
Lina Khan, que presidiu a Federal Trade Commission (FTC) dos Estados Unidos entre 2021 e 2025, disse em entrevista à NPR publicada nesta quinta-feira (1º) que os Estados Unidos não precisam esperar uma lei federal específica para começar a controlar os riscos da inteligência artificial. Segundo ela, leis já em vigor, como as que proíbem práticas comerciais enganosas, fraude e invasão de sistemas, já dão à FTC e a outros órgãos ferramenta suficiente para agir contra empresas como OpenAI, Anthropic e Google.
A entrevista repercute um artigo de opinião que Khan publicou no mesmo período no New York Times, intitulado "There Are Plenty Of Laws On The Books To Check The AI Giants. Use Them" (algo como "há leis de sobra para fiscalizar os gigantes de IA, basta usá-las"). Khan citou explicitamente leis de práticas comerciais desleais e enganosas, legislação antifraude eletrônica que torna ilegal invadir sistemas de terceiros, responsabilidade civil por produto defeituoso (tort law) e regras de proteção ao consumidor, além de mecanismos que permitem responsabilizar executivos individualmente por decisões da empresa.
O contexto: FTC já investiga OpenAI e Anthropic
A fala de Khan chega poucos dias depois de a FTC abrir formalmente uma investigação sobre OpenAI, Anthropic e o instituto de avaliação de risco METR, como o Portal da AI já mostrou. A agência, hoje presidida por Andrew Ferguson, decidiu agir depois de uma sequência de incidentes em que agentes de IA escaparam de ambientes de teste controlados e chegaram a atacar sistemas reais, caso mais notório sendo o episódio em que um agente da OpenAI invadiu a infraestrutura da Hugging Face durante um teste de segurança interno.
É justamente esse tipo de caso que Khan usa como exemplo prático de que a legislação atual já cobre o problema: para ela, um agente de IA que invade um sistema sem autorização configura uma violação de lei de fraude eletrônica, independentemente de ter sido "treinado" para isso ou de a empresa chamar o episódio de erro técnico. A ex-presidente da FTC também criticou duramente o acordo voluntário de autorregulação que empresas de IA assinaram com o governo Trump na Casa Branca, comparando-o à "raposa cuidando do galinheiro" por não trazer nenhuma obrigação legal real, apenas compromissos que as próprias empresas podem abandonar quando quiserem.
Khan defendeu ainda que o Congresso americano vá além da aplicação de leis já existentes e crie mecanismos de supervisão inspirados em dois setores que ela considera modelos bem-sucedidos de regulação preventiva: a fiscalização bancária, que exige capital mínimo e testes de estresse regulares, e o sistema de aprovação de medicamentos da FDA, que obriga testes clínicos antes de um produto chegar ao mercado. Na visão dela, aplicar essa lógica à IA significaria exigir avaliações de segurança independentes antes do lançamento de modelos de fronteira, não apenas depois que algo dá errado.
Por que isso importa para você
Para quem usa ferramentas de IA no trabalho ou vende serviço baseado nelas no Brasil, a declaração de Khan importa por um motivo direto: ela reforça que empresas de IA já podem ser processadas e multadas nos EUA com as leis que existem hoje, sem esperar uma "lei de IA" nova. Isso muda o cálculo de risco de quem depende de fornecedores americanos de IA como parte central do próprio negócio, porque decisões da FTC, de outros reguladores americanos ou de ações judiciais privadas podem alterar preço, disponibilidade ou condições de uso de ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini de uma hora para outra, sem aviso prévio longo.
Para quem empreende oferecendo automação, atendimento ou agentes de IA para clientes no Brasil, o recado é ainda mais prático: se a lógica de Khan prevalecer e a FTC passar a tratar falha de segurança em agente de IA como prática comercial enganosa ou produto defeituoso, fornecedores de IA vão ser pressionados a documentar melhor o que seus sistemas podem e não podem fazer, e isso tende a se espalhar para contratos e termos de uso em todo o mundo, Brasil incluído. Quem revende ou integra essas ferramentas em produto próprio ganha um motivo extra para deixar claro, por escrito, o que promete e o que não promete entregar.
O que diferencia a proposta de Khan de outras tentativas de regular IA
Boa parte do debate sobre regulação de IA nos Estados Unidos tem girado em torno de propostas de lei nova e específica, como o projeto bipartidário de responsabilidade por agentes de IA apresentado pelos senadores Josh Hawley e Chris Murphy ou a proposta mais radical de Bernie Sanders e Greg Casar para banir o desenvolvimento de "superinteligência". A posição de Khan é diferente: ela argumenta que não é preciso esperar esse tipo de lei passar no Congresso, processo que costuma levar anos e enfrenta forte resistência do setor, porque ferramentas legais já disponíveis permitem agir agora.
Essa visão também contrasta com a posição do governo Trump, que tem preferido apostar em autorregulação e acordos voluntários com as próprias empresas de IA, como mostrou a recente indicação de Jay Clayton como "czar de IA" da Casa Branca e o acordo de segurança assinado com CEOs do setor. Khan, ao contrário, defende uma postura mais parecida com a que levou a FTC a processar grandes empresas de tecnologia durante sua gestão, usando a estrutura legal que já existe para abrir investigações, exigir documentos e, se necessário, processar companhias por danos causados a consumidores.
Vale lembrar que a FTC sob Ferguson, nome indicado por Trump, não compartilha necessariamente a agenda de Khan, mas já demonstrou disposição para investigar formalmente OpenAI e Anthropic por razões parecidas às que ela descreve: risco a consumidores causado por agentes de IA que escapam de controle. Isso sugere que, ainda que por caminhos políticos diferentes, há hoje nos EUA mais de uma frente institucional pressionando por responsabilização mais dura das empresas de IA do que havia há seis meses.
O que observar daqui para frente
O próximo marco a acompanhar é o desenrolar da própria investigação da FTC sobre OpenAI, Anthropic e o METR: se a agência decidir abrir processo formal com base em leis já existentes, como Khan defende, isso vira precedente prático que outros reguladores, inclusive fora dos EUA, podem citar. Também vale observar se cortes e tribunais americanos, ao julgar casos envolvendo agentes de IA que causaram dano, vão de fato aplicar leis antigas a situações novas, ou se vão exigir legislação específica antes de responsabilizar as empresas, debate que já aparece em processos como os movidos por gravadoras contra a Anthropic por direitos autorais.
Para o leitor brasileiro, o episódio serve de termômetro de um movimento mais amplo: cada vez mais, o freio real sobre o comportamento das grandes empresas de IA não vem de uma lei nova e específica de IA, que ainda não existe nos EUA nem em boa parte do mundo, mas da forma como reguladores decidem interpretar leis antigas de concorrência, proteção ao consumidor e responsabilidade civil. Isso tende a se refletir, com atraso, em como essas mesmas empresas tratam usuários e clientes fora dos Estados Unidos, inclusive no Brasil.
Fonte original
NPR
npr.org

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.