Lei da IA no Brasil: o que muda para quem usa no trabalho
Lei da IA no Brasil: entenda em que pé está o PL 2338/2023, o que já vale pela LGPD e pelo TSE e o que muda para quem usa IA no trabalho ou no negócio.

Em 3 pontos
- 01O PL 2338/2023, o texto que vai virar a lei da IA no Brasil, ainda está parado na Câmara dos Deputados esperando parecer do relator, sem data certa de votação em 2026.
- 02Mesmo sem a lei aprovada, LGPD, ANPD e a Resolução do TSE 23.755/2026 já obrigam transparência, identificação de conteúdo gerado por IA e cuidado com dados pessoais.
- 03Para quem usa IA no trabalho, o risco imediato não é a lei futura: é usar dado de cliente sem base legal, cortar corners na eleição ou ignorar aviso obrigatório de conteúdo sintético.
Neste artigo
A lei da IA no Brasil ainda não saiu do papel, mas quem usa ChatGPT, Copilot ou qualquer outra ferramenta de inteligência artificial no trabalho já precisa seguir regras que valem hoje. Enquanto o PL 2338/2023 tramita na Câmara dos Deputados sem data certa de votação, LGPD, ANPD e Resolução do TSE já cobram transparência, cuidado com dado pessoal e identificação de conteúdo sintético.
Este guia não é para advogado. É para quem usa IA para escrever proposta, atender cliente, rodar campanha ou automatizar tarefa no negócio e quer saber, na prática, o que já é obrigação, o que é só projeto de lei e onde mora o risco real de multa ou dor de cabeça em 2026.
O que é o PL 2338/2023 e onde ele está na Câmara agora
O PL 2338/2023, conhecido como Marco Legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e chegou à Câmara dos Deputados em março de 2025. Lá, uma Comissão Especial foi criada para analisar o texto, presidida pela deputada Luísa Canziani e relatada pelo deputado Aguinaldo Ribeiro. Até setembro de 2026, a comissão já realizou mais de 30 reuniões, ouviu cerca de 180 convidados entre especialistas, empresas e sociedade civil, e votou mais de 160 propostas de emenda, segundo o próprio portal da Câmara dos Deputados.
O relator apresentou um plano de trabalho ainda em maio de 2025, mas o parecer final segue pendente. A votação, que já foi cogitada para o fim de 2025, foi empurrada para 2026 por falta de consenso em pontos sensíveis, como a definição de "alto risco" e as regras para modelos de fundação. Com o calendário eleitoral de 2026 ocupando o Congresso, ninguém no mercado jurídico aposta em aprovação definitiva antes do fim do ano. Se os termos técnicos do debate soam estranhos, o dicionário de inteligência artificial do Portal da AI ajuda a traduzir o vocabulário.
O que já vale mesmo sem a lei aprovada: LGPD e ANPD
Enquanto o PL 2338 não sai do papel, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já se aplica a qualquer sistema de IA que processe dado pessoal, o que cobre praticamente todo uso corporativo de IA no Brasil. O artigo 20 da LGPD já dá ao titular do dado o direito de pedir revisão de decisão tomada só por algoritmo, como aprovação de crédito ou triagem de currículo com IA na contratação.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) colocou inteligência artificial e tecnologias emergentes como um dos quatro temas prioritários de fiscalização para o biênio 2026-2027, conforme o Mapa de Temas Prioritários publicado pela própria ANPD. Na prática, isso significa orientação e monitoramento primeiro, sanção depois: a agência abriu consulta pública sobre um sandbox regulatório de IA em agosto de 2026, um ambiente supervisionado para empresas testarem soluções sem risco de multa enquanto a regra não amadurece. Antes de contratar qualquer plano pago, vale seguir o checklist de segurança para escolher ferramenta de IA.
O que a Resolução do TSE 23.755/2026 já exige nas eleições
Quem trabalha com marketing, atendimento ou produção de conteúdo para campanha política precisa conhecer a Resolução TSE 23.755/2026, que já está em vigor para as eleições de 2026. Segundo reportagem do Migalhas, ela exige que toda propaganda eleitoral criada ou significativamente alterada por IA traga aviso claro e visível de que a tecnologia foi usada, seja em imagem, áudio, vídeo ou material impresso, o que se conecta direto com o desafio de identificar deepfakes e proteger a reputação de quem aparece na peça.
A resolução proíbe deepfakes que criem ou espalhem conteúdo falso e veda a publicação de novo material sintético com imagem ou voz de candidato entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação. Plataformas digitais têm de manter canal de denúncia e remover conteúdo irregular rapidamente, sob multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil por infração. Em casos graves, a consequência pode chegar a cassação de candidatura ou mandato, como resume o levantamento do Politize!. O próprio TSE lançou uma ferramenta para o eleitor, o assistente de IA ChatVote, o que mostra que o tribunal usa a mesma tecnologia que regula.
Como o PL 2338/2023 pretende classificar o risco da IA
O texto em discussão na Câmara segue uma lógica parecida com a lei europeia de IA: classificar sistemas por nível de risco em vez de regular a tecnologia como um todo. A tabela abaixo resume a ideia central que está sendo debatida, sem entrar em detalhe técnico que ainda pode mudar na votação final. A diferença entre um simples chatbot, um agente de IA e uma automação também importa aqui, porque o nível de autonomia do sistema tende a pesar na classificação de risco.
| Nível de risco | Exemplo de uso | O que a proposta prevê |
|---|---|---|
| Risco excessivo | Pontuação social de cidadãos, manipulação subliminar | Proibição de uso |
| Alto risco | Seleção de currículo, crédito, saúde, segurança pública | Avaliação de impacto, supervisão humana, registro do sistema |
| Uso comum | Chatbot de atendimento, geração de texto e imagem, automação de tarefa | Transparência básica, sem obrigação extra por enquanto |
Vale repetir: essa classificação ainda não é lei. Ela mostra a direção do debate, útil para quem já quer se organizar antes da aprovação, não uma obrigação em vigor hoje.
O que muda na prática para quem usa IA no trabalho
Separando o que é obrigação real hoje do que é só direção futura, esta é a lista prática para quem usa IA no dia a dia da empresa ou do próprio negócio.
- Ter uma base legal da LGPD (consentimento, execução de contrato, legítimo interesse) para todo dado pessoal que entra numa ferramenta de IA.
- Avisar o cliente quando uma decisão relevante (crédito, contratação, preço) passar por IA, e oferecer caminho para pedir revisão humana.
- Identificar de forma visível qualquer imagem, áudio ou vídeo gerado por IA usado em propaganda eleitoral, mesmo que a empresa só preste o serviço para o candidato.
- Evitar publicar conteúdo sintético novo com imagem de candidato entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação, para quem atua com marketing político.
- Guardar log de qual ferramenta de IA foi usada, quando e para quê, algo que o texto do PL 2338/2023 provavelmente vai exigir para sistemas de alto risco.
- Acompanhar a tramitação do PL 2338/2023, porque a obrigação de avaliação de impacto algorítmico pode chegar com prazo curto de adaptação assim que a lei for sancionada.
- Revisar contratos com fornecedores de IA que processam dado sensível, especialmente quem usa IA para revisar documento jurídico ou dado de cliente.
Exemplo prático: agência de marketing político e uma clínica de saúde
Imagine uma agência de marketing digital com 12 funcionários em Belo Horizonte que presta serviço para três campanhas municipais em 2026. Antes de publicar qualquer peça gerada com IA generativa, o time passou a incluir uma legenda fixa de aviso e a bloquear a produção de vídeo com voz clonada do candidato na janela das 72 horas antes da votação, exatamente como pede a Resolução TSE 23.755/2026. O custo foi baixo: menos de um dia de trabalho para ajustar o fluxo de aprovação, o tipo de ajuste que também vale para quem já usa IA para criar e agendar posts de marca.
Já uma clínica de estética em Curitiba que usa um chatbot de IA para pré-triagem de pacientes revisou o próprio fluxo depois de mapear que a ferramenta processava CPF e histórico de saúde sem contrato de processamento de dados com o fornecedor. Ajustar isso levou cerca de três semanas e envolveu reler o guia de privacidade e IA do Portal da AI junto com o time jurídico, antes de qualquer notificação da ANPD.
Erros comuns de quem acha que "a lei ainda não saiu, então não precisa fazer nada"
O erro mais caro é achar que, como o PL 2338/2023 não virou lei, não existe risco regulatório hoje. LGPD e ANPD já valem, com fiscalização crescente prevista para 2026-2027. Outro erro comum é tratar a Resolução do TSE como assunto só de partido político: quem terceiriza a produção de conteúdo para campanha, inclusive times que usam IA para criar avatar digital que fala por você, responde solidariamente se não seguir a regra de identificação.
Empresas também erram ao copiar termo de uso de ferramenta de IA americana sem adaptar à LGPD, e ao não documentar qual fornecedor de IA tem acesso a que tipo de dado. Sem esse mapeamento básico, fica impossível responder rápido se um cliente pedir para saber como seu dado foi usado, direito que a LGPD já garante. Isso vale até para negócio pequeno que só quer reduzir custo operacional com IA sem virar alvo de reclamação.
O que ainda não está definido
Vários pontos do PL 2338/2023 seguem em aberto na Câmara: a definição fechada de "alto risco", o tamanho da multa por descumprimento, qual órgão vai fiscalizar (se a própria ANPD acumula essa função ou se nasce uma agência nova) e o prazo de adaptação para empresas já em operação. Também não há certeza sobre quando a votação final vai acontecer, dado o histórico de adiamentos e a prioridade do Congresso em ano eleitoral. Isso também afeta quem se pergunta quais empregos a IA vai transformar primeiro no país, já que a regulação muda o ritmo de adoção em setores mais sensíveis.
Até lá, quem usa IA no trabalho faz bem em seguir as regras que já existem (LGPD, ANPD, Resolução do TSE) em vez de esperar um texto que ainda pode mudar até a votação final.
Perguntas frequentes sobre a lei da IA no Brasil
Reunimos abaixo as dúvidas mais comuns de quem quer se organizar sem precisar virar especialista jurídico.
Quer entender melhor o cenário mais amplo antes de decidir o que priorizar na sua empresa? O guia completo sobre o que é inteligência artificial ajuda a situar onde a regulação entra nesse mapa, e vale revisar o checklist de segurança antes de contratar qualquer ferramenta nova.

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.
