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Lula diz que Brasil vai criar 'inteligência artificial em português'

Em entrevista ao podcast Flow na noite de 1º de outubro, o presidente defendeu formar jovens para desenvolver IA nacional, dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.

Foto de Bruno DanelloBruno Danellovia Portal da AI

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na noite de 1º de outubro, que o Brasil vai desenvolver uma "inteligência artificial em língua portuguesa", em entrevista ao podcast Flow, no YouTube. Segundo o presidente, o objetivo é formar jovens brasileiros para atuar nessa nova indústria digital em vez de depender só de modelos treinados em inglês ou chinês.

"A gente vai formar a nossa meninada nessa chamada nova indústria digital... porque eu quero inteligência artificial em língua portuguesa", disse Lula, segundo o Estado de Minas. A declaração veio na mesma entrevista em que o presidente também falou sobre produção nacional de celulares e o uso de minerais críticos do país como moeda de troca em negociações tecnológicas.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial

A fala de Lula não nasceu do nada: ela repete um discurso que o presidente já vinha fazendo em agenda de campanha desde setembro, quando defendeu a mesma ideia em um comício em Maceió (AL). Naquela ocasião, o presidente vinculou o projeto ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê cerca de R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, incluindo a instalação de um supercomputador de pesquisa e a criação da chamada "Nuvem Brasileira" para armazenamento e processamento de dados em território nacional. Parte da estratégia também passa por vincular o avanço tecnológico a programas de acesso ao ensino superior, como Prouni e Fies, para formar mão de obra especializada.

O Brasil já tem, na prática, exemplos de "IA em português" rodando antes mesmo do anúncio presidencial. A startup Maritaca AI, fundada por pesquisadores da Unicamp, desenvolve a família de modelos Sabiá desde 2022 e lançou versões que, segundo a própria empresa, superam o GPT-4o em exames nacionais como o Enem, justamente por terem mais conteúdo em português no treinamento. A companhia já oferece inclusive uma versão com inferência e processamento 100% dentro do território nacional, voltada a clientes que precisam de residência de dados no Brasil.

O movimento também acompanha outras iniciativas recentes do governo para atrair infraestrutura de IA para o país. Em setembro, Lula sancionou o Redata, regime fiscal que isenta impostos por cinco anos para data centers de IA instalados no Brasil, em troca de contrapartidas como reservar parte da capacidade para o mercado interno e usar energia limpa. Big techs também vêm anunciando processamento local: o Google Cloud confirmou que o Gemini Enterprise vai processar dados dentro do Brasil a partir de outubro.

Por que isso importa para você

Para quem usa ferramentas de IA no dia a dia profissional, o discurso de soberania digital tem efeito prático bem concreto: modelos treinados com mais dados em português tendem a errar menos em contexto brasileiro, de gírias regionais a legislação e jargão de negócios locais. Isso já é visível em comparações entre modelos genéricos e modelos como o Sabiá, que entendem melhor nuances do português falado no Brasil do que um modelo ajustado principalmente para o inglês.

Há também uma camada de oportunidade de carreira e negócio. Se o governo federal de fato direcionar parte dos R$ 23 bilhões do PBIA para formação e infraestrutura, isso tende a abrir vagas em pesquisa aplicada, engenharia de dados e integração de modelos nacionais em empresas brasileiras, somando-se a um mercado de trabalho que já está mudando o perfil de contratação por conta da IA. Para quem empreende, startups com modelos nacionais também abrem alternativa a assinaturas em dólar de ferramentas internacionais, o que ajuda a reduzir custo operacional em um cenário de câmbio instável.

O que observar daqui para frente

Vale separar o discurso de campanha da execução orçamentária real. Anúncios desse tipo costumam ganhar força em período eleitoral, mas o histórico de planos de infraestrutura tecnológica no Brasil mostra que a distância entre o valor anunciado e o efetivamente desembolsado pode ser grande, e a regulamentação de IA no Brasil ainda está travada no Congresso, sem data definida para votação na Câmara dos Deputados. Sem um marco legal aprovado, fica mais difícil cobrar prazos e metas concretas de qualquer plano nacional de IA, inclusive do PBIA.

Para ficar de olho
  • Se o governo vai publicar editais concretos do PBIA, com valores, prazos e critérios de seleção, em vez de apenas anunciar o montante total.
  • Se empresas como Maritaca AI, além de universidades públicas, vão receber de fato parte do supercomputador de pesquisa prometido.
  • Se a tramitação do marco legal da IA (PL 2338/2023) volta a andar na Câmara dos Deputados antes das eleições de outubro de 2026.

Também é preciso levar em conta a comparação internacional. Outros países já apostaram antes na mesma lógica de "IA com a própria língua e infraestrutura", caso da França com o laboratório Mistral AI, ou dos Emirados Árabes com o modelo Falcon, treinado em árabe e inglês. Em geral, esses projetos avançam mais rápido quando combinam dinheiro público com empresas privadas que já têm produto rodando, em vez de depender só de um órgão estatal criando tecnologia do zero. No caso brasileiro, a Maritaca AI já tem clientes pagantes e modelos em produção, o que sugere que, se o PBIA de fato sair do papel, parcerias com startups nacionais que já existem tendem a andar mais rápido do que a criação de uma estrutura pública paralela.

De qualquer forma, o episódio reforça uma tendência que vem se consolidando em 2026: cada vez mais países, inclusive o Brasil, tratam ter modelos de IA treinados na própria língua e com infraestrutura local como questão de soberania tecnológica, não só de conveniência. Quem depende de IA para trabalhar ou vender no Brasil deve acompanhar não apenas os lançamentos de modelos nacionais, mas também se o governo vai de fato liberar recursos do PBIA em editais e parcerias com empresas como a Maritaca AI, ou se o anúncio ficará restrito ao discurso de campanha.

Fonte original

Estado de Minas

em.com.br

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Quem escreveu

Bruno Danello

Editor e fundador do Portal da AI

Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

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