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Ações de IA despencam após eleição nos EUA e Nasdaq entra em correção

Nvidia cai 9%, AMD 17% e a Nasdaq perde US$ 2,5 tri num dia: o mercado teme que a vitória democrata freie os data centers que sustentam o boom da IA.

Foto de Bruno DanelloBruno Danellovia Portal da AI
Ações de IA despencam após eleição nos EUA e Nasdaq entra em correção
Foto: NASA Headquarters / NASA/Emma Howells (Public domain) / Wikimedia Commons

A eleição de meio de mandato nos Estados Unidos chegou à bolsa com dois dias de atraso e com força. Na quinta-feira (5), as ações ligadas à inteligência artificial sofreram a maior queda desde abril de 2025, e a Nasdaq, índice que concentra as empresas de tecnologia, entrou oficialmente em correção, jargão do mercado para uma queda de mais de 10% em relação ao recorde. O motivo apontado por analistas é direto: a vitória ampla do Partido Democrata, que conquistou as duas casas do Congresso e governos estaduais importantes, aumentou o risco de que a construção de novos data centers de IA fique mais lenta.

Na sexta-feira (6), parte das perdas foi recuperada em Nova York, mas o recado ficou. Pela primeira vez desde que o ChatGPT foi lançado, o investidor passou a precificar a possibilidade de a expansão física da IA encontrar um freio político, e não apenas financeiro.

O tamanho da queda

Segundo a CNBC, a Nasdaq Composite fechou a quinta-feira em queda de 5,52%, aos 24.315 pontos. O S&P 500, que reúne as 500 maiores empresas americanas, recuou 4,36%, e o Dow Jones perdeu 1.833 pontos, ou 3,44%, apagando toda a alta do dia anterior, quando o mercado tinha comemorado o fim da incerteza eleitoral. Os três índices tiveram o pior dia desde abril de 2025, quando o tarifaço anunciado por Donald Trump derrubou bolsas no mundo todo. Pelas contas da Dow Jones citadas pela BBC, a Nasdaq perdeu cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado em um único pregão.

O epicentro foram as fabricantes de chips. A Nvidia, símbolo do boom da IA, caiu 9,3% e passou a acumular perda no ano, depois de ter subido 39%, 171% e 239% nos três anos anteriores, segundo a Associated Press. A Broadcom recuou cerca de 10%, a Qualcomm 9% e a AMD despencou mais de 17%, poucos dias depois de ter anunciado o maior trimestre da sua história com chips para data center. A Micron, de memórias, também perdeu mais de 17%. O fundo de semicondutores SOXX caiu mais de 12%.

A queda atingiu ainda as chamadas neoclouds, empresas que alugam poder de computação para treinar e rodar modelos. A CoreWeave caiu quase 10%, a Nebius cerca de 15% e a Iren quase 17%. A Oracle, que tem contratos bilionários de infraestrutura com a OpenAI, recuou perto de 7%, e a GE Vernova, que fornece equipamentos de energia para data centers, perdeu 7,5%. Segundo a CNBC, as sete gigantes de tecnologia, as chamadas Magnificent 7, chegaram a perder perto de US$ 900 bilhões somadas na última hora do pregão, com a Nvidia respondendo sozinha por cerca de US$ 374 bilhões.

Em números

Nasdaq: queda de 5,52% na quinta-feira (5), cerca de US$ 2,5 trilhões a menos em valor de mercado. Nvidia: menos 9,3%. AMD e Micron: mais de 17% de queda. Cerca de 40% da capacidade de data centers planejada nos EUA fica em estados cujos novos governadores prometeram parar ou pausar obras, segundo a Cleanview, citada pela Bloomberg.

Por que a eleição assustou o mercado

O tema dos data centers foi um dos mais presentes na campanha. Como o Portal da AI já mostrou, 43 de 46 cidades que votaram o assunto aprovaram limites a essas instalações, e vários candidatos venceram com o discurso de pausar novas obras. A Bloomberg calculou o efeito disso no mapa: os governadores eleitos em Ohio, Geórgia, Michigan, Novo México e Texas prometeram parar ou pausar a construção de data centers em todo o estado, e os de Nova York e Oregon disseram que vão prolongar pausas que já existem. Somados, esses estados concentram cerca de 40% da capacidade de data centers ainda a ser construída no país, segundo a empresa de dados Cleanview.

No Congresso, o senador Bernie Sanders, que vota com os democratas, defende uma moratória nacional de data centers. A pesquisa de boca de urna da ABC News mostrou que cerca de seis em cada dez eleitores consideram a IA ruim para a sociedade e que perto de três quartos são contra a construção de novos data centers em suas comunidades. As queixas mais comuns são a conta de luz mais cara e o consumo de água dessas instalações.

Para o mercado, a conta é simples. Menos data centers construídos significam menos chips comprados, menos equipamentos de energia vendidos e menos aluguel de capacidade. O analista Mandeep Singh, da Bloomberg Intelligence, estima que o resultado da eleição pode reduzir entre 5% e 7% os cerca de US$ 1,4 trilhão que as empresas de tecnologia deveriam gastar com infraestrutura de IA em 2027. Isso pode significar até 10 gigawatts de capacidade que deixariam de entrar em operação no ano que vem como estava previsto. "Não foi uma noite muito boa se você constrói data centers", resumiu Justin Teresi, também da Bloomberg Intelligence.

A eleição, porém, só acelerou uma desconfiança que já existia. O mercado vinha questionando o retorno dos investimentos bilionários em IA, como mostrou a queda da Nasdaq no fim de outubro, quando as grandes empresas de tecnologia apresentaram gastos maiores que o caixa gerado. Juros altos, que encarecem o dinheiro emprestado para erguer esses prédios, e o receio de uma bolha também pesavam, segundo a Associated Press.

A reação das empresas e do governo

A OpenAI se mexeu antes mesmo do fechamento do pregão. Na quinta-feira, a empresa publicou novas regras para seus data centers, segundo a ABC News: promete pagar por toda a energia e a infraestrutura que usar, criar um plano de uso de água para cada local, abandonar quase todos os acordos de confidencialidade com autoridades públicas e firmar um "pacto local" com cada comunidade vizinha, com investimentos como merenda escolar e creches. A empresa também pediu que governos estaduais, locais e federal criem "regras claras" para o setor. O movimento lembra o que a Amazon já tinha feito ao encerrar os acordos de sigilo e anunciar US$ 1 bilhão para comunidades.

O presidente Donald Trump culpou a oposição pela queda. Em publicação na sexta-feira, citada pela BBC, ele disse que data centers são "ouro" e que só "uma liderança tola" diria não às riquezas que eles trazem. Trump defende a expansão da IA como peça da disputa com a China, mas boa parte das decisões sobre licenças, energia e incentivos fiscais cabe aos estados e municípios, onde a oposição ganhou terreno.

Nem todos os analistas veem o fim do ciclo. Dan Ives, conhecido investidor de tecnologia em Wall Street, disse à BBC que a capacidade de data centers nos Estados Unidos ainda deve dobrar até o fim do ano que vem e que obras já licenciadas e em andamento não serão interrompidas. Para ele, mesmo que parte dos projetos planejados não saia do papel, os que existirem vão poder cobrar mais pelo uso, e a revolução da IA "vai continuar, só que num ritmo mais lento".

O efeito dominó pelo mundo

A queda atravessou o Pacífico. Na sexta-feira, o índice Nikkei, do Japão, fechou em baixa de cerca de 6%, puxado por empresas de chips de memória como Kioxia e Tokyo Electron. Na Coreia do Sul, o Kospi chegou a cair mais de 8% e acionou o mecanismo que suspende temporariamente as negociações para conter o pânico, fechando em queda de 6%, com a SK Hynix, grande fornecedora de memória para servidores de IA, perdendo mais de 10%. Na Europa, as bolsas de Alemanha, França e Espanha também fecharam em baixa, e o FTSE 100, de Londres, caiu 1,01%.

Em Nova York, o pregão de sexta-feira trouxe algum alívio. Segundo a BBC, a Nasdaq subia cerca de 1,7% na hora do almoço, a Nvidia operava perto de 4% acima do fechamento anterior, a AMD subia cerca de 12% e a Micron mais de 8%. A recuperação, porém, não devolveu as perdas da véspera. "Ninguém sabe o que acontece a seguir, mas está claro que acabamos de ver uma mudança significativa no humor do mercado", disse Dan Coatsworth, chefe de mercados da corretora britânica AJ Bell.

Por que isso importa para você

Para quem investe, o primeiro efeito é concreto. Muitos brasileiros têm exposição às gigantes de tecnologia por meio de BDRs, fundos e ETFs que acompanham a Nasdaq ou o S&P 500, e a tecnologia hoje responde por mais da metade do valor do S&P 500, segundo a Bloomberg. Uma queda dessa magnitude mostra que o tema IA, que puxou as bolsas americanas nos últimos quatro anos, carrega um risco político que antes parecia pequeno. Isso não é recomendação de compra ou venda, mas um lembrete de que concentrar a carteira num único tema aumenta a oscilação.

Para quem usa IA no trabalho, o efeito é mais lento, mas existe. ChatGPT, Claude e Gemini rodam majoritariamente em data centers nos Estados Unidos. Se a construção de capacidade nova ficar mais cara e demorada, as empresas podem segurar a queda de preços das assinaturas e das APIs, apertar limites de uso e priorizar clientes corporativos. Nada disso acontece da noite para o dia, porque os projetos já em obra continuam, mas entra no cálculo das empresas para 2027.

Há ainda um ângulo de oportunidade para o Brasil. Com mais resistência nos Estados Unidos, países que disputam investimentos em infraestrutura ganham argumento, e o governo brasileiro aposta nisso com o Redata, regime de incentivo fiscal para data centers. O que aconteceu nas urnas americanas, porém, mostra que a pergunta sobre quem paga a conta de luz e a água tende a chegar aqui também à medida que os projetos saírem do papel. A próxima semana deve indicar se a queda foi um ajuste pontual ou o início de uma mudança mais duradoura no humor do mercado com a IA.

Fonte original

CNBC, BBC, Bloomberg, ABC News

cnbc.com

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Quem escreveu

Bruno Danello

Editor e fundador do Portal da AI

Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

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