Eleitores dos EUA votam contra data centers de IA e moratórias avançam
Nas eleições de 3 de novembro, 43 de 46 cidades aprovaram limites a data centers, e eleitos no Texas e em Michigan defendem pausa em novas obras de IA.

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), deixaram um recado claro para a indústria de inteligência artificial: o eleitor americano não quer data centers crescendo sem regra perto de casa. Em votações locais, candidatos eleitos e pesquisas de boca de urna, a resistência às grandes instalações que treinam e rodam modelos de IA apareceu em quase todo o mapa, de estados democratas a redutos republicanos.
O balanço foi feito pelo site The Verge, que analisou corrida por corrida, e pelo The Register, que reuniu os dados de duas organizações que acompanham o tema. Os números ainda podem mudar um pouco com a apuração final, mas a direção é a mesma nos dois levantamentos.
O que as urnas disseram
O dado mais direto vem das cidades que votaram o assunto em plebiscito. Segundo o projeto Data Centers on the Ballot, citado pelo The Register, 43 dos 46 municípios que tinham restrições a data centers na cédula aprovaram essas restrições. Só uma cidade, Harwood, na Dakota do Norte, rejeitou a proposta, e duas ainda não tinham divulgado o resultado. Um segundo levantamento, da consultoria Redbud, citado pelo The Verge, contava 45 medidas locais e, na manhã de quarta-feira (4), 33 delas já confirmadas com resultado que limita novas obras.
As regras aprovadas variam bastante. A cidade de Wells, no Maine, aprovou uma moratória de 180 dias para grandes data centers. Várias cidades de Ohio proibiram instalações acima de 25 megawatts. El Dorado, no Kansas, vetou por dez anos data centers com pico de consumo acima de 10 megawatts. Não são proibições à tecnologia, mas freios ao tipo de instalação gigante que as empresas de IA vêm construindo.
A pesquisa de boca de urna da NBC News, citada pelo The Verge, reforça o quadro: 76% dos eleitores ouvidos disseram ser contra a construção de data centers em suas comunidades. Uma pesquisa Gallup feita no começo do ano já indicava que mais de 70% dos americanos rejeitariam uma obra dessas na vizinhança.
43 de 46 votações locais aprovaram limites a data centers. 76% dos eleitores ouvidos pela NBC News são contra data centers na própria comunidade. 43% dos 74 candidatos a governador analisados pela Data Center Watch defendiam proibição ou moratória, e outros 51% queriam mais regulação. Quase US$ 12 milhões foram gastos em anúncios políticos no Facebook e no Instagram que citavam data centers.
Quem venceu com discurso contra data centers
Nas disputas por cargos, o The Verge pondera que é difícil atribuir uma vitória só ao tema, mas lista vários resultados em que ele teve peso. No Texas, estado com o segundo maior número de data centers planejados do país, a democrata Gina Hinojosa venceu o governador republicano Greg Abbott. Ela defende uma moratória estadual e prometeu, segundo o The Register, "parar a tomada dos data centers". Abbott já tinha mandado auditar o uso de energia e água dessas instalações, mas sempre elogiou a expansão do setor no estado.
Em Michigan, o democrata Abdul El-Sayed foi eleito senador defendendo uma pausa em novas obras até que existam proteções federais. Em Ohio, Sherrod Brown recuperou sua antiga cadeira no Senado contra o republicano Jon Husted, a quem chamava de "a cara dos data centers". Um memorando do comitê republicano para o Senado, vazado no meio do ano, já alertava que, se a derrota de Husted fosse atribuída ao tema, os data centers passariam a parecer tóxicos para futuros candidatos.
A lista segue. No Maine, Troy Jackson, que apoia moratória estadual, derrotou a senadora Susan Collins. Na Geórgia, a ex-prefeita de Atlanta Keisha Lance Bottoms, que quer uma pausa para estudar custos e impacto ambiental, venceu para governadora. Em Nevada, o democrata Aaron Ford tirou o governo de Joe Lombardo, a quem apelidou de "Joe dos data centers", e agora defende suspender incentivos fiscais para novas instalações.
Houve exceções. Na Flórida, o republicano Byron Donalds, que se opõe a uma proibição total, venceu por margem apertada. Em Iowa, o democrata Rob Sand ganhou sem apoiar moratória, enquanto o adversário apoiava. Mesmo nesses casos, porém, os candidatos tiveram de prometer alguma contrapartida, como fim de isenções fiscais ou a obrigação de as empresas pagarem pela própria energia e água.
Um tema que atravessou os partidos
O levantamento da Data Center Watch, citado pelo The Register, analisou as posições públicas de 74 candidatos nos 36 estados que escolheram governador. Do total, 43% apoiavam proibição ou moratória de novos projetos e 51% defendiam mais regulação ou construção condicionada a regras. Só cerca de 5% não tinham posição declarada. O apoio a moratórias foi mais comum entre democratas (60%), mas também apareceu entre republicanos (30%). Em oito estados, entre eles Texas, Ohio e Michigan, candidatos dos dois partidos defendiam restrições.
A campanha também mostrou o peso do assunto no bolso. Segundo o Pew Research Center, citado pelo The Register, anunciantes gastaram quase US$ 12 milhões em anúncios políticos no Facebook e no Instagram que mencionavam data centers entre o fim de julho e o fim de outubro. Entre os anúncios veiculados em outubro, 57% eram contra os data centers e só 3% a favor. Os argumentos mais repetidos foram conta de luz mais cara, consumo de água, impacto ambiental e interesse das grandes empresas.
Já o dinheiro da própria indústria de IA pareceu render pouco. O grupo Guardrails Alliance, ligado a sindicatos, classificou como "praticamente irrelevante" a atuação da Leading the Future, rede de comitês de campanha que se opõe à regulação de IA. O movimento contrasta com o plano da OpenAI de transformar a IA em tema central da eleição de 2028, que o Portal da AI já mostrou aqui.
O que muda para as empresas de IA
Governadores influenciam licenças ambientais, regras de energia e incentivos fiscais, embora o poder de aprovar cada obra varie de estado para estado. Na prática, a tendência é que novos data centers nos Estados Unidos fiquem mais lentos e mais caros: mais exigência de consulta local, menos isenção de impostos e mais pressão para que as empresas paguem pela ampliação da rede elétrica que elas próprias exigem. O The Register lembra que moratórias temporárias não significam oposição a qualquer data center, mas mudam o cálculo de quem planeja investir bilhões.
Isso pesa justamente quando as gigantes de tecnologia ampliam seus gastos com infraestrutura. A Amazon, por exemplo, já tinha reagido à onda de moratórias locais com o fim dos acordos de confidencialidade com governos e um programa de US$ 1 bilhão para comunidades. E o mercado financeiro já vinha cobrando retorno desses investimentos, como mostrou a queda da Nasdaq no fim de outubro. Disputas locais, como a que envolve as turbinas a gás do data center da xAI em Memphis, tendem a se multiplicar.
Por que isso importa para você
Quase toda ferramenta de IA que um profissional ou empreendedor brasileiro usa, do ChatGPT ao Claude e ao Gemini, roda em data centers instalados principalmente nos Estados Unidos. Se construir capacidade nova ficar mais lento e mais caro por lá, o efeito pode chegar ao usuário final em forma de limites de uso mais apertados, filas em horários de pico e preços que demoram mais a cair. Não é algo imediato, porque os projetos já aprovados seguem em obra, mas é um fator que entra na conta das empresas para 2027 e 2028.
Há também um lado de oportunidade. Com mais resistência nos Estados Unidos, países que disputam esses investimentos ganham argumento. O Brasil aprovou o Redata, regime de incentivo fiscal para data centers, com a exigência de energia limpa e de reservar parte da capacidade ao mercado nacional. Ao mesmo tempo, as mesmas perguntas feitas pelos eleitores americanos (quem paga a conta de luz, quanto de água é usado, o que a cidade ganha) devem aparecer aqui à medida que os projetos saírem do papel. Para quem depende de IA no trabalho, vale acompanhar esse debate de perto, porque ele vai influenciar onde a capacidade de computação vai estar e quanto ela vai custar.
Fonte original
The Verge, The Register
theverge.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.




