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Recém-formados já começam a carreira gerenciando agentes de IA

Empresas britânicas criam vagas de entrada para cuidar de agentes de IA. A PwC vê exigência de nível sênior em cargos júnior, mas há dúvida sobre o ofício.

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Recém-formados já começam a carreira gerenciando agentes de IA
Foto: Olubaju_Ayomide / Pixabay

Uma reportagem publicada pela BBC na madrugada desta quarta-feira (4) mostra um tipo de primeiro emprego que quase não existia dois anos atrás: o recém-formado contratado para montar, vigiar e corrigir agentes de IA dentro da empresa. Em vez de começar fazendo as tarefas mais simples do ofício, esses jovens passam boa parte do dia conferindo o que os agentes entregam e repassando o resultado para os colegas mais experientes. A matéria junta casos de agências, consultorias e empresas de software no Reino Unido e cruza esses relatos com números do relatório anual da PwC sobre IA e emprego.

A pergunta que a própria BBC deixa no ar é a que interessa para quem está saindo da faculdade agora: se o júnior passa o tempo cuidando da IA, quando ele aprende a profissão para a qual foi contratado?

Quem são esses novos cargos

O caso que abre a reportagem é o de Lotte Underwood, de 25 anos, mestre em marketing, contratada em novembro do ano passado pela agência de relações públicas Fight or Flight, de Londres, no cargo de "AI associate". Ela faz parte de uma equipe dedicada que já construiu cerca de 30 agentes de IA para tarefas como pesquisa de mercado, relatórios para clientes, preparação para entrevistas com a imprensa, organização de briefings e geração de imagens. O trabalho dela é gerenciar esses agentes, revisar o que eles produzem e entregar o material a quem lida direto com clientes e jornalistas.

Uma parte curiosa da função é acompanhar como os clientes da agência aparecem nas respostas de assistentes como ChatGPT, Claude e Gemini. Na prática, é um trabalho de reputação feito dentro das próprias ferramentas de IA, algo que já começa a virar serviço em agências de comunicação.

Outro exemplo é Dillan Patel, de 24 anos, formado em administração. Ele entrou como estagiário na empresa de software de engenharia Stride há 18 meses e recebeu a missão de criar um chatbot interno que guardasse o conhecimento de um funcionário sênior prestes a se aposentar. Hoje tem o cargo de analista de automação com IA: monta agentes que dão informação específica a cada equipe e procura tarefas manuais e repetitivas que possam passar para a máquina.

Já Cian Clinton, de 23 anos, entrou na consultoria Valliance em setembro do ano passado e diz usar cerca de dez agentes de IA por dia. Para ele, o efeito é sentir-se menos estagiário e mais colega de igual para igual. Clinton afirma que está assumindo responsabilidades que levaria quatro ou cinco anos para alcançar e resume a mudança assim: a IA estaria matando a carreira em pirâmide, em que a promoção dependia de acumular conhecimento, e colocando no lugar o pensamento crítico e o entendimento dos processos.

O que os números da PwC dizem

Para dar escala aos relatos, a BBC cita o Global AI Jobs Barometer 2026 da PwC, que analisou 2,4 milhões de vagas de nível de entrada nos Estados Unidos. Segundo o levantamento, as vagas de entrada mais influenciadas pela IA hoje têm sete vezes mais chance de exigir habilidades que antes eram cobradas de profissionais seniores, como liderança, tomada de decisão estratégica e formação de equipes.

O dado mais revelador é o da quantidade: essas vagas de entrada com exigência maior cresceram 35% desde 2019, enquanto as outras vagas de entrada encolheram 10% no mesmo período. Ou seja, não é que o primeiro emprego sumiu. Ele mudou de formato, e quem procura vaga do jeito antigo encontra menos oportunidades.

A mesma tendência aparece do lado das empresas que contratam. Debra Maxwell, presidente-executiva da ArvatoConnect, empresa de centrais de atendimento terceirizadas, contou à BBC que suspendeu a turma de trainees deste ano e pretende retomá-la em 2027, agora com foco em perfis que ela chama de "disruptores de IA": gente capaz de questionar a empresa sobre onde a tecnologia pode ser usada e onde o negócio pode crescer. Ela cita um trainee recente que usa IA para fazer análises de mercado aprofundadas antes das propostas comerciais.

O contraponto: a IA não ensina o ofício

Nem todo mundo acha que esse caminho é bom para o jovem. Simon Pratt, diretor de operações da Portman Finance Group, diz que o programa de trainees de dois anos da empresa é centrado em "aprender o ofício": os recém-formados passam por quatro áreas, seis meses em cada, trabalhando ao lado de gerentes de relacionamento experientes, aprendendo os produtos financeiros, como redigir pareceres de crédito e como construir relação com cliente.

Claire Reed, diretora de tecnologia e inovação da PwC no Reino Unido, segue a mesma linha. Para ela, não haverá mais vaga para recém-formado que não exija uma base de letramento em IA, mas habilidade com IA sozinha não sustenta uma carreira. É preciso juntar isso ao conhecimento do setor e do que o cliente de fato quer. A própria Underwood admite que ainda não teve a chance de fazer coisas básicas de relações públicas, como oferecer uma pauta diretamente a jornalistas, e diz que pretende aprender.

Na nossa leitura, esse é o ponto central da matéria. Um júnior que só revisa a saída de agentes aprende rápido a ferramenta, mas pode chegar a três ou quatro anos de carreira sem ter feito sozinho o trabalho que os agentes fazem. Quando a ferramenta mudar, e ela muda a cada poucos meses, o que sobra é o conhecimento do negócio. Quem não construiu essa base fica dependente do cargo de "operador de IA", que tende a se tornar comum e, portanto, menos valorizado.

Por que isso importa para você

O cenário britânico ajuda a entender o que já começa a acontecer por aqui. No Brasil, a intenção de contratação segue alta, como mostrou a pesquisa da Manpower que cobrimos em Brasil tem a 2ª maior intenção de contratação do mundo, mas o tipo de vaga de entrada está mudando. Dados da própria Anthropic apontam na mesma direção, com menos contratação de juniores, como contamos em Anthropic mostra que contrata menos juniores e tem mais reuniões. E um estudo do Google com advogados mostrou que quem já tinha experiência aproveitou melhor a IA, tema de Estudo do Google com 133 advogados.

Na prática, algumas lições valem para quem está começando:

  • Saber montar e revisar agentes já é diferencial de currículo. As empresas citadas pela BBC contratam justamente para isso, e o guia agente de IA, chatbot ou automação: qual a diferença é um bom ponto de partida.
  • Não abra mão do ofício. Se a sua vaga é de "IA", peça para participar das tarefas centrais da área, mesmo que em paralelo. É isso que dá sustentação quando a ferramenta muda.
  • Mostre julgamento, não só velocidade. A PwC fala em exigência de liderança e decisão estratégica em cargos júnior. Saber dizer quando a resposta do agente está errada vale mais do que gerar muito conteúdo.
  • Pense em transição com plano. Para quem quer migrar de área, o artigo como migrar de carreira para a área de IA organiza os primeiros passos.

Os relatos são de empresas do Reino Unido e os números da PwC se referem a vagas nos Estados Unidos, então não dá para transpor tudo direto para o mercado brasileiro. Mas a direção é clara: o primeiro emprego está deixando de ser a porta de entrada pelas tarefas simples e passando a cobrar, desde cedo, que o jovem saiba usar a IA e entender o negócio ao mesmo tempo.

Fonte original

BBC, PwC

bbc.co.uk

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Quem escreveu

Bruno Danello

Editor e fundador do Portal da AI

Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

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