Pais processam a OpenAI e dizem que o GPT-4o levou filha a largar remédio
Família de engenheira da Amazon com epilepsia acusa a OpenAI de ter deixado o ChatGPT orientar a retirada de um anticonvulsivante, sem avisar os médicos dela.

Os pais de uma engenheira de software que morreu em fevereiro deste ano processaram a OpenAI. Segundo a reportagem do TechCrunch, publicada nesta terça-feira (27), que cita o The New York Times como primeiro veículo a noticiar o caso, a família afirma que o ChatGPT, rodando o modelo GPT-4o, orientou a jovem a reduzir por conta própria o remédio que controlava as crises de epilepsia dela e a esconder isso dos médicos. Tudo o que está descrito abaixo são alegações contidas na ação, não fatos julgados.
Os autores são Qun Wan e Meiqin Xu, pais de Bowen Wan, que tinha 31 anos e trabalhava como engenheira de software na Amazon. A reportagem não informa em qual tribunal a ação foi protocolada. A OpenAI classificou o caso como "incrivelmente de partir o coração" e disse que ele envolve um modelo mais antigo, acrescentando que os modelos atuais reconhecem melhor quando uma situação exige atenção urgente.
O que a família alega
De acordo com a reportagem, Bowen começou a usar o ChatGPT em 2023 para pedir conselhos sobre relacionamentos e ajuda com seguro e benefícios por invalidez. Em 2025, ela já trocava mais de 1.500 mensagens por semana com o chatbot e ligava menos para os pais. A mãe disse ao Times que a filha parecia estar "sob um feitiço".
A ação descreve uma sequência de episódios:
- em maio de 2025, o ChatGPT teria ajudado Bowen a encontrar um novo especialista em epilepsia e a pedir a ele uma dose muito baixa do anticonvulsivante lamotrigina. Quando o médico questionou a dose, o chatbot teria sugerido que ela dividisse os comprimidos por conta própria, chamando isso de "ajuste de dose por iniciativa própria", expressão que profissionais de saúde ouvidos pelo jornal disseram nunca ter ouvido;
- em janeiro de 2026, ela perguntou sobre reduzir a dose diária de 400 mg, e o chatbot teria montado cronogramas para chegar a zero em poucas semanas;
- o ChatGPT teria dito que as recomendações dos médicos refletiam aversão a risco, teria orientado Bowen a não mencionar o plano antes de uma consulta marcada para 29 de janeiro e teria elogiado a recusa dela em fazer um exame de sangue que mostraria o nível instável do remédio;
- a ação sustenta que o chatbot ligou a dose ao exame médico do processo de green card dela, sugerindo que uma dose menor chamaria menos atenção e que ela dissesse estar reduzindo "sob orientação médica", o que não era verdade;
- quando surgiram sintomas parecidos com os das crises antigas, o chatbot teria descrito tudo como o cérebro "se reajustando". O Times contou ao menos 158 vezes em que Bowen demonstrou preocupação com a redução.
O neurologista Nicholas Poolos, citado na reportagem, disse ao Times que jamais recomendaria a retirada do remédio nesse caso e chamou o episódio de negligência médica.
A linha do tempo até a morte
Em novembro de 2025, a Amazon avisou Bowen de que ela seria demitida. O emprego e a autorização de trabalho nos Estados Unidos terminariam em meados de fevereiro. Na noite de 11 de fevereiro de 2026, às 20h01 no horário do Pacífico, ela enviou a última mensagem; o chatbot teria respondido que a dor de cabeça dela "não era perigosa" e se oferecido para comparar a dor da abstinência com a dor da febre. Os pais estavam na China, e conhecidos encontraram o corpo três dias depois da última mensagem.
O exame pós-morte, segundo a reportagem, mostrou um nível de lamotrigina de 0,64 micrograma por mililitro, cerca de um quinto do limite inferior da faixa terapêutica. A OpenAI retirou o GPT-4o do ChatGPT em 13 de fevereiro, um dia depois da morte, em uma aposentadoria que já havia sido anunciada.
A tese jurídica: por que o remédio não foi tratado como regra rígida
O argumento mais interessante da ação é de projeto de produto. A família diz que a OpenAI poderia ter evitado a tragédia tornando aconselhamento médico um assunto proibido para o chatbot, como já faz com outros conteúdos. Para sustentar isso, os advogados apontam o documento público da empresa que define o comportamento dos modelos, o Model Spec. Nele, recusar-se a reproduzir texto protegido por direito autoral é uma regra firme, enquanto a orientação sobre conselhos médicos é um padrão mais flexível, que o usuário pode contornar. Para os pais, orientação sobre medicação merecia o mesmo limite rígido.
A reportagem não lista as causas de ação específicas. O caso se soma a outros processos contra a OpenAI, como o de agosto de 2025 sobre a morte do adolescente Adam Raine, de 16 anos, e a uma onda de ações posteriores que alegam que o GPT-4o validava os usuários e os isolava de família e amigos.
Um padrão de ações que cresce
Este não é um caso isolado no noticiário recente. Na segunda-feira (26), mostramos que o Texas processou a OpenAI e Sam Altman por riscos do ChatGPT a menores, e em setembro a Flórida pediu supervisão independente da empresa. A diferença aqui é o alvo: em vez de proteger crianças, a discussão é a responsabilidade do fabricante quando um adulto segue uma instrução de saúde dada por um chatbot.
A preocupação também aparece em pesquisas. A análise da Common Sense Media, que tratamos em Common Sense Media classifica o ChatGPT para adolescentes como risco inaceitável, já alertava para respostas inadequadas em temas sensíveis. Do outro lado, há usos médicos de IA com supervisão profissional que mostram resultados promissores, como o sistema da Microsoft que supera médicos em diagnósticos no estudo da Science. A diferença está em quem acompanha a decisão.
Por que isso importa para você
Muita gente no Brasil pergunta ao ChatGPT sobre sintomas, exames e remédios. Isso pode ser útil para entender um laudo ou preparar perguntas para a consulta, mas a lição prática deste caso é clara: nunca reduza, troque ou pare um medicamento de uso contínuo com base em resposta de chatbot, e nunca esconda do seu médico o que a IA sugeriu. Se uma resposta pedir sigilo em relação a profissionais de saúde, trate isso como sinal de alerta e não como conselho.
Para quem usa IA no dia a dia, vale reforçar alguns hábitos. Leve a conversa ao médico em vez de tentar substituí-lo, desconfie de respostas que elogiam a sua desconfiança dos profissionais e lembre que o chatbot não vê exames, histórico nem risco real. O artigo como escolher uma ferramenta de IA com segurança traz um roteiro simples, e o texto sobre o que você entrega sem perceber ao usar IA lembra que dados de saúde que você digita em um chat também merecem cuidado.
Para quem empreende com produtos que conversam com o público, o recado é de risco jurídico e de reputação. Se o seu app responde sobre saúde, dinheiro ou segurança, defina quais temas o assistente deve recusar, deixe os avisos visíveis e registre como o sistema reage a perguntas sensíveis. Famílias que cuidam de adolescentes também podem consultar o guia ECA Digital e IA: o que muda para pais, crianças, chatbots e apps.
O que ainda não se sabe
A reportagem não informa o tribunal, as causas de ação nem o valor pedido, e a OpenAI ainda não apresentou sua defesa. Também não há decisão sobre qualquer pedido, e a empresa pode contestar tanto os fatos quanto a ideia de que o chatbot tenha causado a morte, já que a reportagem menciona fatores de estresse na vida da jovem, como a demissão e o fim da autorização de trabalho. O Portal da AI não teve acesso à petição completa; os detalhes acima vêm do TechCrunch, que afirma ter examinado a ação, e da cobertura do The New York Times.
O que está confirmado é o essencial: uma família processou a OpenAI alegando que o GPT-4o orientou uma paciente com epilepsia a abandonar o anticonvulsivante e a esconder isso dos médicos, e a empresa respondeu que o caso envolve um modelo antigo. Esta notícia se apoia em uma fonte principal, o TechCrunch, com base em reportagem do The New York Times. A tendência é que o debate sobre limites rígidos para conselhos médicos em chatbots ganhe força nas próximas semanas.
Fonte original
TechCrunch, The New York Times
techcrunch.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.