SUSE vai cortar cerca de 10% dos empregos e cita IA e automação
A fabricante alemã de Linux SUSE avisou a equipe de que cortará cerca de 10% dos empregos e diz que a IA e a automação reduziram a necessidade de alguns cargos.

A SUSE, empresa alemã de Linux fundada em 1992, vai cortar cerca de 10% dos funcionários. O comunicado interno foi enviado na segunda-feira (2) pelo presidente-executivo, Dirk-Peter van Leeuwen, e cita de forma direta a IA e a automação como motivo. A informação foi revelada pelo jornalista Liam Proven, do The Register, que teve acesso ao memorando, e depois resumida pelo The Next Web. A SUSE ainda não publicou nada sobre o assunto em sua sala de imprensa, então os detalhes abaixo vêm dessas reportagens.
Segundo o The Next Web, a controladora, a gestora sueca EQT, informa que a SUSE tem mais de 1.900 funcionários. Dez por cento disso dá algo perto de 190 pessoas, mas essa é uma conta do Portal da AI a partir do número da EQT, não um total divulgado pela empresa. O memorando não diz quais cargos serão atingidos nem em quais países.
O que diz o memorando
Van Leeuwen escreveu que "está claro que a automação e a IA estão mudando de forma fundamental o modo como as empresas de software operam". Na visão dele, a estrutura e a base de custos atuais não vão levar a companhia adiante. Ele argumenta que as ferramentas modernas permitem que as equipes andem mais rápido, com menos custo fixo e com linhas de reporte mais enxutas.
A frase que mais chama atenção é a de que "a necessidade de alguns cargos existentes diminuiu bastante". Em outras palavras, a empresa não diz que está sem dinheiro, e sim que parte do trabalho que antes exigia uma pessoa dedicada passou a ser feita de outro jeito. O executivo também afirmou que as decisões são dolorosas para as pessoas, para a cultura da empresa e para a comunidade de código aberto, e que o corte reflete mudança de necessidades, não falta de talento ou de comprometimento de quem sai.
Calendário e contexto da empresa
O cronograma descrito na reportagem é curto. Os funcionários afetados serão avisados até 4 de novembro. No dia seguinte, serão indicados os representantes dos trabalhadores, o que é esperado numa empresa alemã. As conversas individuais começam na semana seguinte. E em 16 de novembro a SUSE apresenta ao restante da equipe a estratégia para o ano fiscal de 2027.
Não é um movimento totalmente inesperado. Em setembro, o próprio The Register havia noticiado que a SUSE perguntou a funcionários antigos se aceitariam uma saída voluntária. A EQT comprou a SUSE da Micro Focus em 2018 por US$ 2,5 bilhões, abriu o capital da empresa em Frankfurt em 2021 e voltou a fechá-lo em 2023. Van Leeuwen, ex-executivo da Red Hat, assumiu o comando em 2023. Em março, a agência Reuters publicou que a EQT avaliava vender a SUSE, o que ajuda a explicar a pressão por uma estrutura de custos menor.
Há ainda um detalhe curioso de timing. Em 27 de outubro, a própria SUSE anunciou novos recursos de IA com agentes para suas ferramentas de gerenciamento de Linux. Ou seja, a empresa vende automação com IA para clientes ao mesmo tempo em que diz que a IA muda quantas pessoas ela mesma precisa.
Reação e o padrão que se repete
Christian Brauner, ex-funcionário da SUSE, criticou os cortes no Mastodon e escreveu que é triste ver essa "rotatividade sem sentido em nome da maximização do lucro" acontecer com uma ótima empresa. A fala mostra que nem todo mundo aceita a explicação de que a IA é a causa principal. Sem número de produtividade ou lista de cargos, fica difícil separar o que é efeito real da IA do que é corte de custo comum em empresa controlada por fundo de investimento.
O caso entra numa sequência recente. A reportagem lembra que a Holanda planeja cortar 25 mil empregos no governo, o Barclays está cortando 5 mil vagas e a American Express disse que reduzirá 5% da equipe. Cobrimos esses casos aqui: Holanda corta 25 mil empregos no governo central e aposta em IA, Barclays corta 5 mil vagas e liga parte da decisão à IA e Amex corta 5% da equipe e só deixa agentes de IA entrarem por API ou MCP. Também vale ler a oferta de saída voluntária da Microsoft em Microsoft abre saída voluntária a até 60 mil funcionários.
Existe um contraponto importante. O relatório da Workday, que resumimos em Relatório da Workday mostra que IA muda as vagas mais do que corta empregos, aponta que o efeito mais comum é mudar o conteúdo das funções, não eliminá-las. O caso da SUSE mostra o outro lado: quando a empresa decide que um tipo de cargo perdeu a razão de existir, a mudança vira demissão.
Por que isso importa para você
A SUSE é alemã, mas o recado vale para quem trabalha com tecnologia ou presta serviço para empresas de software no Brasil.
- Para quem é empregado em tecnologia: o argumento de "menos camadas e mais ferramentas" tende a atingir primeiro funções de coordenação e tarefas repetitivas. Quem domina IA no próprio trabalho e consegue mostrar resultado fica em posição melhor na hora de uma reestruturação.
- Para quem pensa em mudar de área: o guia como migrar de carreira para a área de IA ajuda a montar um plano, e o texto carreira depois dos 45 com IA traz caminhos para quem já tem muita experiência.
- Para freelancers e pequenas empresas: empresas de software que cortam custo costumam rever contratos de consultoria e suporte. Vale diversificar clientes e deixar claro, na proposta, o resultado que você entrega com apoio de IA.
- Para quem usa software de código aberto: não há sinal, na reportagem, de mudança nos produtos da SUSE. Mesmo assim, acompanhe a apresentação de estratégia de 16 de novembro se a sua operação depende de uma distribuição Linux dela.
Mantenha um registro simples do que você entrega com ajuda de IA: tarefas feitas, tempo economizado e resultados medidos. Em conversa de reestruturação, quem consegue mostrar números concretos de produtividade argumenta melhor do que quem só diz que usa as ferramentas.
O que observar a seguir
O primeiro ponto é a lista de áreas atingidas e se a SUSE confirmará o número de cortes em comunicado próprio. O segundo é a estratégia do ano fiscal de 2027, que deve mostrar onde a empresa pretende usar mais automação e agentes. O terceiro é se outras empresas de software de médio porte vão adotar o mesmo discurso nas próximas semanas, o que reforçaria a leitura de que a IA já pesa nas decisões de quadro de pessoal no setor.
Por enquanto, o que está confirmado é o memorando visto pelo The Register e as frases do presidente-executivo. O resto, como o total exato de demissões e o efeito real da IA na produtividade da SUSE, ainda não foi divulgado.
Fonte original
The Register, The Next Web
thenextweb.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.