Ransomware n0n gastou US$ 7 mil em IA, mas entrou por senhas fracas
SOCRadar achou o servidor exposto do grupo n0n: IA ajudou a escrever scripts, mas todas as invasões usaram credenciais fracas ou roubadas, não falhas de software.

Um grupo de extorsão que usa IA para atacar empresas acabou entregando o próprio manual de operação: deixou um servidor aberto na internet com todos os seus arquivos à vista. A descoberta é da empresa de inteligência de ameaças SOCRadar e foi contada pelo The Register em 30 de outubro de 2026. O grupo se chama n0n, tentou invadir 23 organizações em 14 países e, só em serviços de IA, gastou mais de US$ 7.216 até 22 de outubro. O ponto mais interessante para quem trabalha com tecnologia: apesar de toda a conversa sobre IA descobrindo falhas, nenhuma das invasões documentadas dependeu de uma brecha de software.
O que a SOCRadar encontrou
Segundo a reportagem do The Register, a SOCRadar localizou o espaço de trabalho do operador: um servidor de arquivos em Python, acessível publicamente e hospedado na Suécia, na porta 8877. A empresa registrou o conteúdo em capturas de 25 e 26 de setembro e contou 1.719 arquivos, entre scripts de ataque, código-fonte do ransomware, infraestrutura de extorsão e o ambiente de um agente de IA para programação.
Com isso foi possível ver a operação por dentro, e não apenas a lista de vítimas que o grupo publica em seu site de vazamentos. O n0n é um grupo novo, que apareceu no mês passado e já reivindicou 108 vítimas. Em 12 de outubro, ele publicou de uma só vez 38 organizações do setor marítimo, de portos e logística em 18 países, e pesquisadores ligaram ao menos 21 delas a clientes de um fornecedor sul-coreano de software marítimo, que não confirmou ter sido invadido. O prazo para pagamento era 19 de outubro, com pedidos de resgate entre US$ 400 mil e US$ 28 milhões em bitcoin. Passado o prazo, nenhuma das 38 listagens foi marcada como paga e nenhum endereço de pagamento recebeu qualquer transação.
Como a IA entrou na operação
A SOCRadar não achou prova de um sistema de ataque totalmente autônomo. O que apareceu foi o uso de IA como ajudante de programação: o operador usava o OpenCode, um agente de código aberto para programar, configurado com 154 entradas de modelos de sete provedores. A lista inclui nomes como Gemini, Mistral, Nemotron, Llama, Claude, GPT-5.x, Grok, Kimi, GLM, DeepSeek, MiniMax e Qwen, alguns com travas de segurança removidas e outros vendidos como "sem censura".
Para Ensar Seker, diretor de segurança da informação da SOCRadar, o operador usou IA para escrever e depurar centenas de scripts, o que mostra como a tecnologia ajuda um atacante a transformar um acesso básico em uma operação mais ampla e sob medida. Em outras palavras, a IA não abriu a porta: ela acelerou o trabalho depois que a porta já estava aberta.
A porta de entrada foi a mais velha de todas
Aqui está o dado que mais pesa. Em todos os casos documentados, o acesso inicial veio de credenciais fracas ou roubadas. O grupo varre a internet atrás de acessos de área de trabalho remota (RDP) e faz ataques de preenchimento de credenciais em portais de VPN de firewalls FortiGate, usando um conjunto de proxies residenciais para testar combinações de usuário e senha. Em outro caso, usou uma chave de acesso da AWS exposta, com permissão para listar, ler e apagar objetos em buckets S3, e puxou dados de 40 buckets, com até 110 GB cada. Depois apagou dados, incluindo arquivos de transações bancárias, e eliminou chaves em 12 buckets sensíveis.
Seker resumiu a combinação: desenvolvimento assistido por IA com pontos de entrada muito convencionais. A SOCRadar diz não ter encontrado evidência de exploração de vulnerabilidades nos casos examinados. Isso contrasta com o clima das últimas semanas, em que o noticiário esteve cheio de falhas críticas achadas com ajuda de IA, como o caso do PHP2Shell, que a CISA confirmou estar sob ataque real.
Mais destruição do que só criptografia
Segundo a análise, o n0n não se limita a trancar arquivos. Em alguns casos ele roubou e criptografou dados, e em outros apagou arquivos e cópias de segurança, impedindo a vítima de se recuperar mesmo que pagasse. Em um episódio, alterou regras de firewall para bloquear o tráfego. Seker destacou que isso cria um problema de recuperação que uma chave de descriptografia sozinha não resolve.
O ciclo era sempre o mesmo: acesso inicial, persistência com contas administrativas escondidas que se passam por serviços, proxies ocultos, roubo de credenciais e de tokens de sessão, leitura de caixas de e-mail e de códigos de autenticação em duas etapas enviados por e-mail. Depois, os dados iam para um armazenamento central do operador. Por fim vinham a nota de resgate, um contador regressivo no site de vazamentos, salas de negociação e, para aumentar a pressão, avisos automáticos a fornecedores, clientes e imprensa. Depois de invadir a Transcom, empresa de serviços financeiros da Holanda, o grupo mandou um alerta de resgate direto à equipe de segurança do PayPal, embora os dados comprometidos estivessem só na rede da Transcom.
Um grupo agressivo, mas descuidado
A SOCRadar classifica o n0n com nota 10 em agressividade e zero em letalidade. Algumas vítimas aparecem no site do grupo como "honradas, dados destruídos", o que indicaria pagamento, mas a empresa não validou nenhuma transação na blockchain. O grupo é considerado provavelmente baseado na Rússia, embora o servidor exposto, atribuído a um único operador ou a uma equipe pequena, não traga atribuição geográfica definitiva.
A ironia, nas palavras de Seker, é um grande abismo entre ambição operacional e disciplina de segurança: o operador investiu milhares de dólares em serviços de IA e deixou o próprio espaço de trabalho exposto. O código do ransomware ainda tinha chaves de criptografia embutidas, com indícios de reaproveitamento entre vítimas. Ou seja, é possível ter capacidade destrutiva séria e ainda assim cometer erros básicos.
Por que isso importa para você
A lição prática é menos assustadora do que parece. Se a IA barateia a produção de scripts de ataque, o que separa você de um incidente continua sendo higiene básica. Quem toca um negócio, uma agência ou um projeto de automação pode reduzir muito o risco com poucas medidas: ativar autenticação em duas etapas com chave de acesso em vez de código por e-mail, nunca reaproveitar senhas, fechar RDP exposto à internet, exigir VPN com autenticação forte e guardar chaves de nuvem fora de repositórios e arquivos soltos. Cópias de segurança precisam ficar isoladas, porque o grupo apagava backups.
O assunto conversa com outras notícias recentes do Portal da AI: o ataque à Railway atrás de chaves de IA, o pós-mortem do ataque ao LiteLLM, que começou em uma chave mestra exposta e a campanha de hackers que usaram um agente de IA contra 2.250 tenants do Microsoft 365. Para o dia a dia, vale ver o guia de chaves de acesso (passkey), o de gerenciador de senhas e o checklist para escolher uma ferramenta de IA com segurança.
Vale lembrar que os dados vêm de uma empresa de segurança com interesse comercial no tema e de um único veículo; a SOCRadar também não validou os pagamentos de resgate. Os números de vítimas e valores gastos refletem o que estava no servidor exposto até 22 de outubro e podem mudar conforme a investigação avançar.
Fonte original
The Register, SOCRadar
theregister.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.
