Nvidia avalia avalizar dívida da Nscale em data center da Anthropic
A Nvidia negocia garantir bilhões em dívida da Nscale para o data center da Anthropic na Virgínia Ocidental, num contrato de US$ 44,6 bi, diz o TechCrunch.
A Nvidia está em conversas para funcionar como avalista de bilhões de dólares em dívida da Nscale, a empresa de nuvem para IA que prepara a abertura de capital, de acordo com reportagem publicada nesta sexta-feira (30) pelo TechCrunch. O financiamento serviria para pagar energia e obras do campus que a Nscale planeja na Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, e que foi pensado para atender a Anthropic. A informação foi publicada primeiro pelo The Information, na quinta-feira (29), e depois confirmada pela Bloomberg. Nem a Nvidia nem a Nscale comentaram oficialmente, então trata-se de negociação em andamento, e não de acordo fechado.
Como funcionaria a garantia da Nvidia
Na prática, a Nvidia assinaria junto com a Nscale os empréstimos que a empresa precisa tomar para construir o data center. O desenho descrito é o de uma garantia de valor residual. Se a Nscale deixasse de pagar as parcelas da construção, a Nvidia entraria em campo, assumiria temporariamente a instalação e ajudaria a encontrar um comprador ou um novo inquilino para o espaço. É um seguro para quem empresta o dinheiro: os bancos sabem que, no pior cenário, uma das maiores empresas do setor garante que o prédio não ficará parado.
O que chama atenção é o tipo de risco coberto. Até aqui, o apoio de crédito da Nvidia a provedores de nuvem se concentrava em contratos de aluguel e na compra de chips. Agora a conversa envolve a construção do prédio e o fornecimento de energia, a parte mais cara, lenta e imprevisível de qualquer projeto de IA. O TechCrunch descreve o movimento como sinal de quanto a indústria está se esforçando para manter de pé os planos de expansão, num momento em que investidores ficam mais desconfiados dos valores envolvidos.
O contrato da Anthropic e os números do campus
O motivo de tanto empenho é o cliente. Segundo o pedido de abertura de capital da Nscale, de 18 de setembro, a Anthropic assinou um contrato de US$ 44,6 bilhões só para o primeiro prédio do campus. Esse prédio terá 460 megawatts e deve usar os chips de próxima geração da Nvidia, os Vera Rubin. As duas empresas também discutem um segundo acordo, de cerca de US$ 45 bilhões, para um outro prédio no mesmo local.
Um investidor ouvido pelo The Information disse que a presença da Anthropic provavelmente explica o interesse da Nvidia em manter o projeto no prazo. A Anthropic divide seus gastos de infraestrutura entre vários fabricantes de chips, e a Nvidia quer garantir que parte desse dinheiro continue indo para suas máquinas. A própria Anthropic acabou de protocolar o pedido de listagem em bolsa, assunto que detalhamos em Anthropic abre S-1 com ANT na Nasdaq e US$ 16,3 bi de receita no semestre.
Uma Nscale com muito a provar
A Nscale quer abrir o capital com avaliação de até US$ 35 bilhões, como mostramos em Nscale abre capital nos EUA, mas há dúvidas crescentes sobre a capacidade de entregar o que promete. De acordo com o Financial Times, citado na reportagem, a empresa tinha cerca de 25 mil chips avançados de IA funcionando em agosto, contra um plano de instalar quase 500 mil. A distância entre o que existe e o que foi prometido é grande, e é exatamente essa distância que preocupa quem empresta dinheiro.
O campus da Virgínia Ocidental também tem problemas locais. A reportagem diz que o escoamento da obra já alagou casas vizinhas mais de uma vez. Em setembro, depois de meses de negociação, o projeto recebeu a certificação do estado. Em outubro, a Microsoft desistiu de um terreno planejado pela Nscale na Inglaterra, depois que a energia da rede elétrica para o local foi empurrada para a década de 2030, caso que contamos em Microsoft deixa data center da Nscale no Reino Unido antes do IPO. Ou seja, energia e prazos são os pontos fracos do setor, e o aval da Nvidia tenta reduzir o custo desse risco.
A exposição crescente da Nvidia às neoclouds
Segundo o The Information, a Nvidia já distribuiu cerca de US$ 170 bilhões em investimentos e apoio de crédito a neoclouds e grandes clientes. Isso inclui US$ 1 bilhão em financiamento conversível que a empresa se comprometeu a aportar na Nscale em setembro, operação que explicamos em Nscale capta US$ 3,36 bilhões antes do IPO. Neoclouds são as empresas que alugam poder de computação para IA sem ter por trás um negócio já lucrativo, como o de uma Amazon ou de uma Microsoft. Por isso dependem muito de crédito e de contratos de longo prazo.
O mercado já mostrou nervosismo com esse modelo. Conforme a reportagem, que cita a CNBC, as ações da CoreWeave, da Nebius e da IREN caíram mais de 30% em outubro, considerando o dado da semana anterior à publicação. O quadro se soma a outras notícias da semana sobre o custo da corrida por capacidade, como o crédito de até US$ 80 bilhões que a Amazon poderá tomar com o hardware de IA e a cobrança do mercado por retorno descrita em Nasdaq cai 2,9% e mercado cobra retorno dos gastos em IA.
O risco de crédito da própria Anthropic
Há ainda um detalhe que liga as pontas. A reportagem lembra que a gestora de investimentos Blackstone alertou investidores de que a Anthropic pode receber uma nota de crédito abaixo do grau de investimento, o chamado grau especulativo ou junk, depois de abrir o capital. Uma nota assim encareceria os empréstimos da empresa e poderia empurrá-la a depender mais de parceiros fortes para garantir suas dívidas. É nesse contexto que um avalista como a Nvidia ganha sentido: ele empresta a própria solidez para que o projeto consiga financiamento mais barato.
Vale a cautela de sempre com esse tipo de reportagem. Os termos descritos vêm de fontes que falaram com veículos de imprensa, não de um comunicado das empresas, e podem mudar ou nem se concretizar. Tampouco há valor divulgado para a garantia, apenas a referência a bilhões de dólares em dívida.
Por que isso importa para você
Parece distante, mas esse tipo de acordo decide quanta capacidade de IA existirá e a que preço. Cada modelo que você usa no trabalho, do Claude aos concorrentes, depende de data centers que precisam ser financiados antes de gerar receita. Quando o crédito aperta, os projetos atrasam, e atrasos de capacidade costumam aparecer para o usuário final como limites de uso mais baixos, filas e preços de API que sobem em vez de cair.
Para quem empreende ou presta serviço com IA, a lição prática é diversificar. Se a sua operação depende de um único fornecedor de modelo, qualquer gargalo de infraestrutura nele vira risco para o seu negócio. Vale manter alternativas testadas, acompanhar com atenção os anúncios de limites e preços, como os que cobrimos em OpenAI dobra os limites de Codex e Work nos planos Pro, e evitar contratos longos baseados em preços que podem mudar.
Do lado do investidor pessoa física, o episódio é um lembrete de que a euforia com IA convive com uma cadeia de financiamento cheia de garantias cruzadas. Quando uma fornecedora de chips avaliza o cliente que compra seus chips, o risco fica concentrado em poucos nomes. Isso não é motivo de pânico, mas pede atenção a quem tem fundos ou ações ligados ao setor, principalmente neste momento de queda das empresas de nuvem para IA.
O que observar daqui para frente
O primeiro ponto é saber se a Nvidia confirma a garantia e em que termos: valor, prazo e o que a empresa recebe em troca. O segundo é o andamento do IPO da Nscale, porque a abertura de capital está de pé enquanto a empresa ainda tem poucos chips em operação perto da meta. O terceiro é o segundo prédio de cerca de US$ 45 bilhões em discussão com a Anthropic, que dobraria a aposta da startup no campus.
Também vale acompanhar se outras fornecedoras seguirão o mesmo caminho. Se o aval se tornar prática comum, a Nvidia passa a assumir parte do risco de construção de data centers, e não apenas o de vender chips. Em um mercado em que centenas de bilhões de dólares estão comprometidos, entender quem garante quem é uma das melhores formas de enxergar onde a corrida por IA pode travar. Por ora, o que está confirmado pela reportagem é a negociação, o contrato de US$ 44,6 bilhões da Anthropic com a Nscale registrado no pedido de IPO e a fragilidade financeira do setor refletida nas ações.
Fonte original
TechCrunch, The Information, Bloomberg
techcrunch.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.
