Microsoft desiste de data center da Nscale no Reino Unido antes do IPO
Segundo o Telegraph, a Microsoft saiu do acordo para ancorar o primeiro data center da Nscale no Reino Unido, em Loughton, semanas antes do IPO.

A Microsoft teria desistido de um acordo para ser o cliente âncora do primeiro data center da Nscale no Reino Unido, em Loughton, no condado de Essex, a poucas semanas do IPO da empresa. A informação foi publicada pelo jornal britânico The Telegraph e repercutida pela Bloomberg, e chegou a este texto por meio de uma reportagem do The Next Web publicada neste domingo (18). Nem a Microsoft nem a imprensa que acompanha o caso apontaram o motivo da saída.
O que foi reportado sobre a saída da Microsoft
De acordo com o Telegraph, a Microsoft deixou o projeto de Loughton, que já acumulava atrasos. A Bloomberg publicou o mesmo fato citando o jornal e disse que a Microsoft não respondeu de imediato ao pedido de comentário. O Telegraph também não conseguiu uma posição da big tech sobre o assunto, e o motivo da retirada segue sem explicação oficial.
A Nscale, por sua vez, afirma que continua comprometida com o local. Um porta-voz da empresa disse ao Telegraph que a relação com a Microsoft permanece forte e de longo prazo. A companhia diz estar avaliando outras fontes de energia e outros locais no Reino Unido, o que sugere que o plano original precisará ser reescrito.
Neocloud é o nome dado a empresas de nuvem especializadas em computação para IA, como a Nscale e a CoreWeave. Em vez de vender de tudo como a Amazon, o Google ou a Microsoft, elas alugam capacidade de GPUs para laboratórios e empresas, muitas vezes com dinheiro emprestado para construir os data centers antes de ter os clientes.
Energia é o gargalo do projeto de Loughton
O problema do local já era conhecido. O próprio The Next Web havia noticiado em julho que a rede elétrica não conseguiria conectar o site a tempo da abertura planejada. Segundo a reportagem atual, as autoridades avisaram a Nscale para não esperar fornecimento de energia antes da década de 2030. Para um data center de IA, que depende de grandes volumes de eletricidade estável, isso na prática inviabiliza o cronograma original.
O caso de Loughton se soma a outras notícias recentes em que a falta de energia e de infraestrutura trava a expansão da IA. Já mostramos aqui como a Oracle invocou força maior em um data center do Stargate no Novo México e como a própria Microsoft planejava triplicar a capacidade de data centers de IA. Construir é caro, demorado e depende de decisões que escapam ao controle das empresas, como a velocidade com que a rede elétrica local é ampliada.
IPO de até US$ 3 bilhões e dependência de dois clientes
A saída chega num momento delicado. A Nscale busca levantar até US$ 3 bilhões em sua oferta de ações, possivelmente ainda neste mês. Segundo o documento do IPO, Microsoft e Anthropic respondem por cerca de 85% dos contratos da empresa. Essa concentração é um fator de risco comum em neoclouds, porque a perda ou a redução de um único cliente grande pesa muito na receita futura.
A Anthropic, em agosto, firmou um compromisso de gastar US$ 45 bilhões em computação da Nscale ao longo de seis anos. A Microsoft, por sua vez, assinou uma carta de intenções para um campus na Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, o que indica que a relação comercial entre as duas não acabou, e que a retirada se limita ao projeto britânico. A reportagem também cita que o principal site da Nscale na Noruega está cerca de seis meses atrasado, com 6,4 MW em operação de um total planejado de 30 MW.
Esses números ajudam a entender o que os investidores vão avaliar. Já havíamos mostrado a abertura de capital da Nscale nos EUA com avaliação de US$ 35 bilhões e a rodada de US$ 3,36 bilhões em financiamento conversível antes do IPO, em que a Nvidia entrou como investidora. Agora o mercado passa a precisar pesar, ao mesmo tempo, o crescimento acelerado da receita e os atrasos de obra.
O humor do mercado com as neoclouds
O contexto setorial não ajuda. Segundo a reportagem, os investidores estão cautelosos com empresas desse tipo, muitas das quais se endividam pesadamente para ampliar a capacidade. As ações da CoreWeave caíram 25% na semana passada, o pior desempenho semanal desde novembro. Na Austrália, a Firmus cancelou seu IPO por não conseguir apoio suficiente de investidores.
A CoreWeave é a referência do segmento, e vale lembrar o tamanho do que essas empresas prometem entregar: nossa cobertura do backlog de US$ 104 bilhões da CoreWeave mostra que boa parte do negócio depende de contratos longos com poucos compradores. Quando a confiança no setor cai, empresas ainda não listadas, como a Nscale, sentem primeiro, porque precisam convencer o mercado de que a demanda vai se converter em receita.
O que isso muda para quem usa IA no Brasil
Para quem trabalha ou empreende com IA no Brasil, a história pode parecer distante, mas ela toca em algo prático: o custo e a disponibilidade da capacidade de computação que está por trás das ferramentas usadas no dia a dia. Modelos como o Claude e o Copilot rodam em data centers, e a Anthropic é justamente uma das duas grandes clientes da Nscale. Atrasos de obra e cortes de investimento podem, no médio prazo, pressionar preços de API, limites de uso e prazos de lançamento de novos recursos.
Isso não significa que algo vá mudar amanhã. O que a notícia mostra é que a infraestrutura é o ponto frágil da corrida de IA. Já vimos empresas ajustando custos, como na reportagem sobre Microsoft e Meta reduzindo o uso do Claude por causa dos custos. Para o profissional ou o pequeno negócio, a lição é não depender de um único fornecedor: manter alternativas de modelo e ferramenta evita sustos se o preço ou a oferta de um serviço mudar.
O que acompanhar nos próximos dias
O primeiro ponto é se a Microsoft vai comentar publicamente a decisão, já que até agora o motivo é desconhecido. O segundo é como a Nscale ajustará o plano britânico, com novas fontes de energia ou novos locais. O terceiro é o próprio IPO, que, segundo a reportagem, pode acontecer ainda em outubro: a reação dos investidores dirá se o mercado ainda paga caro por promessa de capacidade de IA, ou se começa a exigir prazos de entrega mais firmes.
Vale ressaltar que a informação sobre a saída da Microsoft vem de reportagens que citam o Telegraph, sem confirmação da empresa. Enquanto não houver posicionamento oficial, o tratamento correto é de fato reportado, não confirmado. Acompanhamos o caso e atualizamos o Portal da AI quando houver novidades.
Fonte original: The Next Web, com base em informações do Telegraph e da Bloomberg.
Fonte original
The Next Web
thenextweb.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.
