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Anthropic abre S-1: ANT na Nasdaq e US$ 16,3 bi de receita no semestre

Prospecto público na SEC mostra receita de US$ 16,3 bilhões no 1º semestre de 2026, mais de 11,9 mil clientes grandes e pedido de listagem na Nasdaq.

Foto de Bruno DanelloBruno Danellovia Portal da AI

A Anthropic, empresa dona do Claude, registrou nesta segunda-feira (26) o prospecto público de abertura de capital (formulário S-1) na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. No documento disponível no sistema EDGAR da SEC, a empresa diz que aplicou para listar suas ações Classe A na Nasdaq Global Select Market sob o símbolo "ANT". O preço por ação e a quantidade de papéis ainda estão em branco, como é comum nessa fase.

O pedido em si não é novidade: a empresa já havia entrado com um pedido confidencial, como mostramos em Anthropic apresenta pedido confidencial de IPO avaliado em US$ 965 bilhões, e partes do texto vazaram em setembro, tema de IPO da Anthropic mira US$ 2 trilhões e revela prejuízo de US$ 42 bi. O que muda agora é que o documento completo é público, com números auditados de 2023 a 2025 e números do primeiro semestre de 2026. A reportagem do The Verge e a do TechCrunch também deram a notícia, mas os números abaixo foram conferidos no próprio S-1.

Os números do S-1: receita multiplicada e prejuízo contábil gigante

A receita da Anthropic foi de US$ 41 milhões em 2023, US$ 386 milhões em 2024 e US$ 4,585 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, segundo a tabela de resultados do prospecto, chegou a US$ 16,286 bilhões, contra US$ 1,163 bilhão no mesmo período de 2025. Ou seja, só nos seis primeiros meses deste ano a empresa faturou mais de três vezes o que faturou em todo 2025.

O prejuízo líquido do semestre foi de US$ 80,748 bilhões, e o de 2025, de US$ 41,965 bilhões. O número assusta, mas o próprio documento mostra de onde ele vem: o resultado operacional (receita menos despesas de operação) foi um prejuízo bem menor, de US$ 693 milhões no semestre, contra US$ 8,06 bilhões em todo 2025. A maior parte do rombo contábil vem da linha "variação do valor justo de notas conversíveis, derivativos e SAFEs", que somou uma perda de US$ 72,4 bilhões no semestre. Em termos simples, como o valor da empresa subiu muito, os títulos que dão direito a ações no futuro passaram a valer mais no papel, e isso entra como despesa. Não é dinheiro saindo do caixa.

Em dinheiro de verdade, o prospecto informa que, até 30 de junho de 2026, a Anthropic tinha levantado US$ 141,1 bilhões em capital, com US$ 112,4 bilhões em caixa e equivalentes e US$ 19,3 bilhões em aplicações de curto prazo. Entre as despesas do semestre, a maior foi computação e infraestrutura (US$ 8,9 bilhões), seguida por vendas, marketing e parcerias (US$ 3,2 bilhões, contra US$ 120 milhões um ano antes) e pessoal (US$ 3,2 bilhões).

Quem paga a conta: clientes grandes e uso crescente

O S-1 traz também métricas de clientes, medidas em 30 de setembro de 2026. Mais de 11.900 clientes gastaram US$ 100 mil ou mais nos últimos 12 meses (eram mais de 950 um ano antes), mais de 1.900 passaram de US$ 1 milhão e cerca de 250 passaram de US$ 10 milhões. A empresa também cita uma retenção líquida de receita de cerca de 900%, calculada sem contar os assinantes dos planos Claude Pro e Max, o que significa que quem já era cliente passou a gastar, em média, muito mais.

Outro dado que ajuda a entender a lógica do negócio: segundo o prospecto, o Claude Opus 5.5 reduziu em cerca de 40% o custo por tarefa para os clientes em comparação ao Opus 5, modelo cujo lançamento cobrimos em Anthropic lança Claude Opus 5.5. A tese da empresa é que custo menor por tarefa gera mais uso e mais gasto total. O documento descreve o Claude Code, o agente de programação, como a manifestação mais clara dos "Virtual Collaborators" (colaboradores virtuais) que a companhia quer estender a trabalhadores do conhecimento em geral.

Contratos de computação: US$ 3,1 bi por mês só com a SpaceXAI

O capítulo de compromissos de infraestrutura é um dos mais impressionantes. O S-1 diz que a Anthropic fechou acordos com a SpaceXAI para usar GPUs da Nvidia, com gasto de até US$ 120,5 bilhões ao longo de contratos que se estendem até 2029, algo como US$ 3,1 bilhões por mês quando toda a capacidade estiver entregue, o que a empresa espera para dezembro de 2026. Depois dos períodos iniciais sem cancelamento, que terminam em janeiro e março de 2027, cada contrato pode ser cancelado por qualquer das partes com 90 dias de aviso.

A lista de dependências inclui ainda a AMD (um primeiro lote de capacidade em 2027) e três grandes nuvens: Amazon, Google e Microsoft, além de fornecedores como a Broadcom. Já mostramos parte dessa corrida por chips em Wall Street lança dívida de US$ 60 bi para chips da Anthropic. O S-1 reconhece que a empresa depende de poucos fornecedores para esse recurso crítico, o que é, nas palavras do próprio documento, um fator de risco.

Governança incomum e riscos escritos sem filtro

A Anthropic é uma empresa de benefício público (PBC) em Delaware e diz ter uma estrutura de governança nova. Um fundo de benefício público, o Anthropic Public Benefit Fund, receberá 5% das ações totalmente diluídas, tema de Anthropic vai destinar 5% das ações a um fundo de benefício público. Há um conselho de fiduciários independente, o Long-Term Benefit Trust, com poder de eleger e remover a maioria dos membros do conselho, e a empresa será considerada "controlled company" pelas regras da Nasdaq. Classes especiais de ações (como a Classe E, para funcionários, sem direitos econômicos) completam o desenho, que se conecta ao que explicamos em Anthropic pede aval de acionistas para dar aos sete fundadores 50,1% do poder de voto.

Na seção de riscos, a empresa escreve que sistemas de IA suficientemente avançados poderiam, sem salvaguardas, representar riscos "catastróficos ou existenciais" para a humanidade. Afirma que seus modelos já contribuem para o ritmo da própria pesquisa e que isso aumenta os riscos. Alerta que debates sobre "sentiência" ou "status moral" de sistemas de IA podem levar a regras que limitem como treina e modifica os modelos. E avisa que nenhuma seguradora, e talvez o setor de seguros inteiro, teria capacidade de cobrir um incidente catastrófico de IA. Também admite que sua receita anualizada (run-rate) já incluiu valores de clientes que depois foram identificados como violadores da política de uso.

Por que isso importa para você

Se você usa Claude no trabalho ou numa pequena empresa, a abertura de capital não muda o produto amanhã. Mas o prospecto ajuda a responder perguntas práticas sobre o fornecedor de quem você pode estar dependendo.

  • Estabilidade do fornecedor: com US$ 112,4 bilhões em caixa e uma receita que cresce em ritmo recorde, o risco de a empresa sumir do mapa é baixo no curto prazo. O risco que o documento destaca é outro: custo de computação e dependência de poucos fornecedores, que pode afetar preço e limites de uso. Para decidir entre ferramentas, veja o comparativo ChatGPT, Claude ou Gemini: qual IA escolher.
  • Preço por tarefa em queda: a própria empresa diz que baixar o custo por tarefa é parte da estratégia. Isso favorece quem automatiza rotinas, como explicamos em agentes de IA e o futuro do trabalho autônomo.
  • Investidor brasileiro: o preço e o número de ações ainda não foram definidos, e o prejuízo contábil de US$ 80,7 bilhões vem em grande parte de efeitos de marcação a mercado. Leia o documento com calma antes de qualquer decisão, e lembre que isto é informação, não recomendação de investimento.
  • Mercado de trabalho: a tese de "colaboradores virtuais" aponta para mais tarefas de conhecimento sendo delegadas a agentes. Quem entende desse tipo de ferramenta sai na frente.
Como ler um S-1

Comece pelo resumo ("Prospectus Summary"), vá direto à tabela de resultados e depois aos fatores de risco. Desconfie de manchetes que só citam o prejuízo líquido: separe o resultado operacional (o negócio em si) dos ajustes contábeis, como fez o próprio documento da Anthropic.

O que observar a seguir

O primeiro ponto é a faixa de preço e o tamanho da oferta, que aparecem em emendas ao S-1 antes da precificação. O segundo é a data da estreia na Nasdaq: reportagens anteriores apontavam para novembro, como em Anthropic mira IPO antes do Dia de Ação de Graças, diz Bloomberg, mas o prospecto ainda não traz data. O terceiro é a reação da OpenAI, que empurrou seu IPO para 2027, conforme OpenAI busca captar US$ 30 bilhões e empurra IPO para 2027. Por fim, vale acompanhar como a receita do terceiro trimestre se compara à do primeiro semestre, já que o prospecto deixa em branco a receita anualizada de 31 de outubro, a ser preenchida numa versão posterior.

Como tudo que sai de um prospecto, os números podem ser revisados em emendas até a oferta, e os dados de 2026 são do primeiro semestre, sem auditoria completa de ano fechado. A fonte primária está aberta no site da SEC para quem quiser conferir cada tabela.

Fonte original

SEC (prospecto S-1 da Anthropic, PBC)

sec.gov

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Foto de Bruno Danello

Quem escreveu

Bruno Danello

Editor e fundador do Portal da AI

Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

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