Anthropic fatura US$ 17 bi no trimestre e tem US$ 895 bi em compromissos
S-1 emendado traz receita 12 vezes maior em um ano, prejuízo contábil de US$ 23,3 bi ligado a notas conversíveis e quase US$ 900 bi em compromissos.
A Anthropic, dona do Claude, protocolou nesta segunda-feira (2) uma versão emendada do prospecto de abertura de capital (S-1) na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. O documento atualiza o que a empresa havia publicado na semana passada com os resultados do terceiro trimestre de 2026, que ficaram de fora da primeira versão. Segundo o The Next Web, que cita a Bloomberg, a receita do trimestre ficou perto de US$ 17 bilhões, cerca de 12 vezes o valor do mesmo período do ano passado. A The Decoder traz os mesmos números e acrescenta outros detalhes de reportagens do The Information, do New York Times e do Nikkei.
Vale a ressalva: os números abaixo vêm dessas reportagens sobre o documento, não de uma leitura nossa do S-1 emendado. Quem quiser conferir tabela por tabela deve consultar o prospecto no sistema EDGAR da SEC. Também é importante lembrar que se trata de informação, não de recomendação de investimento.
Receita sobe, mas o resultado operacional volta ao negativo
Na primeira versão do prospecto, que analisamos em Anthropic abre S-1: ANT na Nasdaq e US$ 16,3 bi de receita no semestre, a empresa mostrava números até 30 de junho. Agora entra o terceiro trimestre. Antes, a Anthropic já havia dito a investidores que a receita do trimestre chegara a US$ 16,8 bilhões, e o novo documento oficializa esse patamar. Pelas contas do The Next Web, somando os nove primeiros meses de 2026, a receita chega a US$ 33,2 bilhões.
O lado menos confortável é o custo. De acordo com o The Information, citado pela The Decoder, as despesas operacionais do trimestre foram de cerca de US$ 17,5 bilhões, praticamente iguais à receita, o que levou a um prejuízo operacional de aproximadamente US$ 567 milhões. No segundo trimestre a empresa havia registrado um lucro operacional de cerca de US$ 974 milhões, então o resultado voltou ao vermelho. Ainda assim, as operações geraram US$ 3,9 bilhões em caixa no primeiro semestre, segundo as mesmas reportagens.
A Decoder menciona dois itens que pesaram nas despesas: cerca de US$ 5 bilhões em capacidade de computação de curto prazo e cerca de US$ 2 bilhões em doações de funcionários que a empresa se comprometeu a igualar. É um retrato de uma companhia que cresce muito rápido e gasta quase tudo que ganha para sustentar esse crescimento.
O prejuízo de US$ 23,3 bilhões é, em grande parte, contábil
O prejuízo líquido do trimestre foi de US$ 23,3 bilhões, contra US$ 12,1 bilhões um ano antes. O número chama atenção, mas, como já havia ocorrido no semestre, a maior parte não é dinheiro saindo do caixa. Segundo o The Next Web, o valor está ligado a notas conversíveis, em sua maioria nas mãos da Amazon. A Anthropic reavalia essas notas a cada trimestre: quanto mais a empresa vale, mais valem as notas, e essa alta é lançada como perda nas contas. Quando a empresa abrir capital, as notas devem virar ações, o que elimina em boa parte esse efeito contábil.
Por isso, ao ler manchetes sobre o prejuízo, separe duas coisas: o resultado do negócio em si (receita menos despesas de operação) e os ajustes de valor justo de instrumentos financeiros. O primeiro diz se a operação se paga. O segundo reflete, em boa medida, o quanto o mercado acha que a empresa vale. O TNW também menciona um prejuízo líquido de US$ 104 bilhões nos nove meses, número que as demais reportagens não repetem, então tratamos esse dado com cautela e não o usamos nas análises abaixo.
US$ 895 bilhões em compromissos de computação
O dado mais impressionante do documento é o tamanho dos compromissos de compra. A Anthropic informa ter assumido cerca de US$ 895,4 bilhões em obrigações, quase todas ligadas a poder de computação, infraestrutura e arrendamento de data centers. Perto de US$ 448 bilhões vencem até o fim de 2030, incluindo uns US$ 70 bilhões nos próximos 12 meses, segundo a Bloomberg via TNW. O próprio TNW calcula que isso equivale a quase 13 vezes a receita anualizada da empresa, o que levanta a pergunta de quão rápido a receita consegue alcançar o custo da expansão.
Esse movimento combina com o que já mostramos sobre a dependência de poucos fornecedores, como no caso do contrato com a SpaceX, em Anthropic é a maior cliente da SpaceX em computação, e com a corrida por financiamento de chips, em Wall Street lança dívida de US$ 60 bi para chips da Anthropic. A Decoder, citando o New York Times, diz que a Anthropic enfrenta falta de capacidade desde o fim do ano passado, e por isso fechou dezenas de acordos com Amazon, Google, SpaceX, fabricantes de chips e antigos mineradores de criptomoedas. A empresa espera ter acesso a mais de 3,5 gigawatts de energia neste ano e pretende dobrar esse número no próximo.
IPO: ANT na Nasdaq, valor discutido de US$ 1,4 a 1,5 trilhão
Pelo relato do TNW, a Anthropic planeja listar suas ações na Nasdaq com o símbolo ANT antes do fim de novembro. A Bloomberg informou que investidores discutem uma avaliação entre US$ 1,4 trilhão e US$ 1,5 trilhão, o que colocaria a oferta entre as maiores da história. O New York Times calcula que o IPO poderia levantar cerca de US$ 100 bilhões, e o Nikkei diz que até US$ 3,5 bilhões disso poderiam vir de investidores japoneses. Nada disso foi confirmado pela empresa em preço ou quantidade de ações, e valores podem mudar até a precificação.
A rival OpenAI também entrou com pedido confidencial, mas, segundo as reportagens, mira uma listagem em 2027, tema que cobrimos em OpenAI busca captar US$ 30 bilhões e empurra IPO para 2027. A diferença de calendário dá à Anthropic a chance de ser a primeira grande empresa de modelos de fronteira com ações negociadas em bolsa.
Por que isso importa para você
Se você usa Claude para trabalhar, atender clientes ou montar um negócio, estes números ajudam a avaliar o fornecedor de quem você depende, sem mexer no produto de um dia para o outro.
- Risco de fornecedor: a empresa cresce em ritmo raro e tem caixa, mas depende de computação cara e escassa. O risco real para o usuário é preço e limite de uso, não o desaparecimento da empresa. Já falamos de mudanças de plano em Anthropic renomeia o Claude Max 20x para Ultra e tira o limite de 5 horas.
- Não dependa de uma ferramenta só: quem monta processos ou um negócio em cima de IA deve ter plano B. O comparativo ChatGPT, Claude ou Gemini: qual IA escolher ajuda a decidir.
- Custo por tarefa: com tanta computação contratada, a empresa precisa de muito uso para fechar a conta, o que tende a manter pressão por modelos mais eficientes e planos diferentes. Para organizar rotinas com agentes, veja agentes de IA e o futuro do trabalho autônomo.
- Investidor brasileiro: o preço da ação ainda não existe. Leia o prospecto com calma, entenda a diferença entre prejuízo contábil e operacional e lembre que isto não é recomendação de investimento.
Procure três linhas: receita, resultado operacional e variação do valor justo de instrumentos financeiros. A terceira costuma explicar a maior parte do prejuízo líquido quando a empresa vale cada vez mais, e não significa dinheiro que saiu do caixa.
O que observar a seguir
O primeiro ponto é a faixa de preço e o número de ações, que devem aparecer em novas emendas ao S-1 antes da precificação. O segundo é se a data de estreia na Nasdaq se confirma antes do fim de novembro. O terceiro é o ritmo de crescimento da receita frente ao custo: o prejuízo operacional do terceiro trimestre mostra que o lucro do segundo trimestre não é garantido, e o mercado vai olhar de perto essa linha. Por fim, vale acompanhar como a Anthropic vai pagar o volume de compromissos de computação, que supera em muito a receita anual atual.
Atualizamos o assunto conforme novos documentos e comunicados oficiais da empresa surgirem. Os números aqui citados vêm de reportagens da Bloomberg, do The Information, do New York Times e do Nikkei, reproduzidas pelo The Next Web e pela The Decoder, e podem ser revisados em emendas posteriores do prospecto.
Fonte original
The Next Web, The Decoder, Bloomberg
thenextweb.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

