Portal da AI

Anthropic usa Claude para projetar proteínas contra toxinas de escorpião

Em 64 horas, o Claude gerou 318 mil projetos de proteínas; 17 dos 211 testados em laboratório se ligaram às toxinas, mas ainda não há antiveneno pronto.

Foto de Bruno DanelloBruno Danellovia Portal da AI
Anthropic usa Claude para projetar proteínas contra toxinas de escorpião
Foto: Wolle8ball (CC BY 3.0) / Wikimedia Commons

A Anthropic publicou nesta terça-feira (20) um estudo em que um modelo de pesquisa interno, rodando dentro do Claude Science, projetou pequenas proteínas capazes de se ligar com força a toxinas de escorpião. O trabalho foi feito em parceria com a Citrini Research e descrito pela equipe de ciência da empresa no artigo original da Anthropic. O objetivo declarado é apoiar pesquisas futuras de antivenenos, e não entregar um medicamento pronto.

O caso chama atenção menos pelo resultado biológico em si e mais pela forma como foi obtido: o Claude trabalhou de maneira autônoma durante as primeiras 24 horas de um projeto que, ao todo, durou 64 horas, a partir de um comando inicial e de quatro orientações de acompanhamento dadas por pesquisadores. É um exemplo concreto do que se chama de agente de IA aplicado à ciência, tema que o Portal da AI explica em agentes de IA e o futuro do trabalho autônomo.

O que a Anthropic fez, passo a passo

Segundo a empresa, a tarefa foi desenhar minibinders, que são proteínas pequenas feitas para grudar com firmeza em um alvo. Os alvos foram cinco toxinas de escorpião, vindas de quatro espécies diferentes: Cn2, do México, Ts1, do Brasil, AaH I e AaH II, do norte da África, e LqhIII, do Oriente Médio. A empresa lembra que as picadas de escorpião causam mais de 1,2 milhão de casos e mais de 3.250 mortes por ano, a maioria entre crianças.

O Claude escolheu as estruturas das toxinas, definiu os pontos de ligação mais promissores, estabeleceu critérios mínimos de qualidade e criou estratégias para projetos que mirassem mais de uma toxina ao mesmo tempo. Para isso, usou 12 ferramentas de design de proteínas e gerou 318.484 projetos. Depois, simulou o encaixe de 553.052 pares entre projeto e toxina. A campanha consumiu cerca de 10 mil horas de GPU.

Dos projetos gerados, o Claude escolheu 180 para teste, e a equipe humana acrescentou outros 31, chegando a 211 proteínas levadas ao laboratório. A empresa diz que filtrou projetos parecidos com toxinas ou com proteínas conhecidas e que o trabalho teve supervisão humana, mas não detalha outras salvaguardas no texto.

O que os testes de laboratório mostraram

Dois laboratórios independentes avaliaram a ligação das proteínas: a Adaptyv Bio, usando expressão sem células, e a Twist Bioscience, com expressão em células de rim humano. Para contar como binder, o projeto precisava aparecer como acerto nos dois laboratórios, com constante de dissociação de 1 micromolar ou melhor e sem sinal contra uma proteína de controle sem relação, a CLEC12A. A LqhIII foi testada apenas na Adaptyv Bio.

Pelos critérios, 17 projetos passaram: 7 contra a Cn2, 4 contra a AaH II, 4 contra a AaH I e 2 contra a LqhIII. Entre os 60 projetos pensados para uma única toxina, 18% viraram binders. Os dois melhores, chamados Cn2-B1 e Cn2-B2, alcançaram afinidade na casa de um dígito em nanomolar, o que indica uma ligação muito firme. Experimentos de competição sugerem que eles atuam no mesmo local, ou perto dele, de um anticorpo conhecido que neutraliza a Cn2 em camundongos.

Houve uma falha clara: nenhum projeto multitoxina, aquele que tentava ligar mais de uma toxina com a mesma proteína, atendeu aos critérios. A Anthropic levanta algumas hipóteses para isso, sem cravar uma causa.

O que ainda não foi provado

A própria empresa é cuidadosa nos limites. Os testes usaram toxinas recombinantes, e não toxina purificada de veneno real. Nenhum projeto foi avaliado quanto à capacidade de neutralizar a toxina em células ou em animais vivos. A Anthropic afirma que não produziu um antiveneno e que transformar um binder em remédio seguro e acessível continua sendo um desafio grande. Os especialistas Susana Vázquez Torres, do CNIO, em Madri, e Timothy P. Jenkins, da Universidade Técnica da Dinamarca, descreveram o trabalho como um primeiro passo promissor.

Os 211 projetos e os dados do experimento foram liberados no Hugging Face, junto com um relatório técnico, o que permite que outros grupos tentem reproduzir ou ir além do resultado.

Na prática

Ao ler notícias de IA na ciência, separe três coisas: o que foi gerado, o que foi medido em laboratório e o que foi provado em organismos vivos. Aqui, só as duas primeiras aconteceram, e a terceira ainda está por fazer.

Por que isso importa para você

Mesmo longe da biologia, o episódio mostra como agentes de IA estão sendo usados em tarefas longas, com muitas etapas e ferramentas, e não só para responder perguntas. O padrão é o mesmo que aparece em outras pesquisas recentes cobertas pelo Portal da AI, como o sistema enzimático parecido com o CRISPR achado pelo Claude e o rastreio das sementes das curvas do NIST: um humano define o objetivo, e o agente executa e filtra milhares de tentativas.

Para quem empreende ou trabalha com tecnologia, a lição prática é que o valor está em saber formular bem o problema, definir critérios de qualidade e checar os resultados com testes independentes. Foi exatamente isso que fez a diferença aqui: o modelo gerou em massa, mas a validação veio de laboratórios externos com regras rígidas. Quem quer aplicar o mesmo raciocínio em um negócio pode começar pelo básico em automação com IA para economizar horas de trabalho.

Há também o lado da segurança. Projetar proteínas que se ligam a toxinas é um tipo de capacidade que exige cuidado, e o debate sobre uso duplo da IA em biologia tende a crescer. O Portal da AI mostrou, por exemplo, a iniciativa da DeepMind de criar marca d'água para proteínas desenhadas por IA, um caminho para rastrear a origem desse tipo de material.

O que acompanhar daqui para a frente

Os próximos passos a observar são os testes de neutralização em células e em animais, a repetição do resultado por grupos independentes com os dados públicos e a eventual extensão do método a outras toxinas e a outros venenos. Também vale ver se projetos multitoxina, que falharam desta vez, conseguem avançar com ajustes. Até lá, o resultado é uma prova de conceito: mostra que um agente de IA pode conduzir uma campanha longa de design de proteínas e entregar candidatos reais, mas ainda não um tratamento.

Fonte original

Anthropic

anthropic.com

Ler na fonte original
Foto de Bruno Danello

Quem escreveu

Bruno Danello

Editor e fundador do Portal da AI

Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

Últimas

Mais notícias

Todas as notícias →