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Mercado paralelo revende acesso ao Claude na China com até 90% de desconto

Revendedores chineses usam servidores no exterior e contas fraudulentas para driblar o bloqueio da Anthropic, vendendo acesso ao Claude por uma fração do preço oficial.

Foto de Bruno DanelloBruno Danellovia Portal da AI

Um mercado paralelo de revenda de acesso ao Claude continua crescendo na China, mesmo com a Anthropic proibindo oficialmente o uso de seus modelos no país. Segundo reportagem da IANS, que cita levantamento do veículo sul-coreano The Chosun e da publicação The Information, pelo menos 6 de 30 empresas analisadas no distrito de Haidian, em Pequim, vivem da revenda de acesso à ferramenta, e o número de "estações de repasse" desse tipo é estimado em dezenas de milhares espalhadas pelo país.

O esquema funciona com revendedores comprando em massa endereços de e-mail sobrando de antigos projetos de criptomoeda para cadastrar contas no Claude, depois revendidas a usuários chineses via WeChat e Alipay. Uma análise separada da pesquisadora Zilan Qian, do Oxford China Policy Lab, publicada pela newsletter The Decoder, mostra que esses intermediários, chamados de "estações de transferência", cobram perto de 10% do preço oficial cobrado pela Anthropic.

Como o esquema contorna o bloqueio da Anthropic

A Anthropic não vende assinaturas do Claude para usuários na China continental, por razões regulatórias e de segurança nacional que já apareceram em outras notícias daqui, caso do alerta da própria empresa sobre riscos de modelos chineses como o GLM 5.3. Para contornar essa barreira, os revendedores hospedam servidores-proxy fora do território chinês, que recebem a requisição do usuário local e a repassam à Anthropic como se tivesse origem numa localização autorizada, driblando tanto o bloqueio geográfico quanto a exigência de cartão de crédito internacional para pagamento.

Entre as táticas mapeadas estão o uso de cartões de crédito virtuais vinculados a entidades de Hong Kong ou dos Estados Unidos e pagos em criptomoeda, fazendas de SMS que controlam números de telefone em jurisdições autorizadas para passar pela verificação por código da Anthropic, e a divisão de uma única assinatura Max de US$ 200 entre vários usuários simultâneos. Pesquisadores do CISPA Helmholtz Center analisaram 17 desses proxies e encontraram uma prática ainda mais grave: troca de modelo sem avisar o cliente. Em um dos casos, um endpoint vendido como acesso ao Claude na verdade respondia usando um modelo mais barato, com desempenho medido em benchmark médico de apenas 37%, contra 83,8% do modelo original contratado.

A Anthropic já reagiu publicamente ao problema. Em março de 2026, a empresa acusou três companhias chinesas de criarem cerca de 24 mil contas fraudulentas, usadas em mais de 16 milhões de interações com o Claude para treinar modelos concorrentes com as respostas copiadas, episódio que reforça como o acesso irregular não serve só para economizar dinheiro, serve também para alimentar o treinamento de IA rival sem licenciamento.

Por que isso importa para você

Para quem usa IA para trabalhar ou empreender no Brasil, o caso chinês é um alerta direto sobre um tipo de risco que também circula por aqui: serviços que prometem acesso "mais barato" a ferramentas de IA de ponta, driblando o plano oficial do provedor. O Portal da AI já mostrou como escolher ferramenta de IA com segurança importa tanto quanto escolher a ferramenta certa, e o esquema chinês é um exemplo extremo do que pode dar errado: o operador do proxy tem acesso completo ao que você digita e recebe, incluindo prompts com dados sensíveis de clientes, contratos ou código-fonte de empresa, e pode revender esse conteúdo como material de treinamento para outro modelo, sem o usuário nunca saber.

O golpe de "troca de modelo" identificado pelo CISPA é ainda mais relevante para quem usa IA em decisão profissional: contratar acesso a um modelo de ponta e receber, sem aviso, respostas de um modelo mais fraco é um risco de qualidade silencioso, que só aparece quando o resultado do trabalho sai errado. Isso vale como lembrete de que vale a pena desconfiar de qualquer oferta de acesso "por fora" a ferramentas como Claude, ChatGPT ou Gemini, mesmo quando o preço parece vantajoso demais, situação que lembra outros casos recentes de fraude com IA mirando quem confia demais em canal digital barato ou informal.

Um padrão que já apareceu em outras frentes da disputa China-EUA por IA

O mercado paralelo de tokens do Claude não é um caso isolado. Ele segue a mesma lógica vista em outra fronteira da disputa tecnológica entre China e Estados Unidos: a do contrabando de chips avançados de IA, tema que o Portal da AI já cobriu no caso de um executivo investigado por contrabando de processadores Nvidia para a China. Em ambos os casos, a demanda chinesa por tecnologia de IA de ponta é maior do que o acesso formal permitido pelas regras de exportação e pelas políticas das próprias empresas americanas, e isso cria um ecossistema de intermediários dispostos a assumir o risco legal em troca de margem.

A estrutura descentralizada do esquema é o que torna o combate difícil. Segundo a reportagem, quando a Anthropic bloqueia um revendedor identificado em plataformas como o Taobao, outro substituto aparece em poucas horas, e os operadores mais sofisticados já criam empresas de fachada no Sudeste Asiático, no Oriente Médio e nos próprios Estados Unidos para firmar contratos empresariais legítimos com a Anthropic ou a AWS, dificultando ainda mais a identificação de uso indevido. A Anthropic afirma monitorar fuso horário e padrão de uso para detectar violações, mas a escala do problema, com dezenas de milhares de operações estimadas, sugere que a fiscalização está longe de acompanhar o crescimento do mercado paralelo.

O que fica diferente a partir de hoje

O bloqueio de um provedor de IA a um país inteiro não impede o acesso, só empurra a demanda para um mercado informal sem nenhuma garantia de segurança ou qualidade. Para quem usa IA em qualquer lugar do mundo, o caso chinês é um lembrete concreto de que pagar menos por acesso "por fora" a uma ferramenta de IA pode significar entregar dados sensíveis a um intermediário desconhecido, ou receber um modelo mais fraco do que o contratado sem aviso nenhum.

O que observar daqui para frente

Vale acompanhar três desdobramentos. O primeiro é se a Anthropic consegue de fato reduzir a escala do mercado paralelo com mais fiscalização, ou se a estrutura descentralizada dos revendedores continua tornando o combate ineficaz. O segundo é se outras provedoras de IA de ponta, caso de OpenAI e Google, que também restringem acesso formal à China, enfrentam o mesmo tipo de mercado paralelo, o que sugeriria um problema estrutural do setor, não um caso isolado da Anthropic. O terceiro é se o episódio acelera a adoção de modelos chineses próprios, como o Qwen da Alibaba, reduzindo a demanda por acesso irregular a produtos ocidentais à medida que a oferta doméstica amadurece.

Por ora, a lição prática para quem usa IA fora da China é simples: qualquer acesso barato demais a uma ferramenta de ponta merece desconfiança, e vale a pena revisar o checklist de segurança antes de contratar qualquer serviço de IA que prometa economia sem explicar como. O guia do Portal da AI sobre como escolher ferramenta de IA com segurança traz os pontos básicos que ajudam a identificar esse tipo de risco antes de comprometer dados sensíveis do seu trabalho ou negócio.

Fonte original

IANS

ianslive.in

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Quem escreveu

Bruno Danello

Editor e fundador do Portal da AI

Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.

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