Claude Mythos 5 projeta circuitos quânticos com até 12 vezes menos portas
A Anthropic diz que o Claude criou, em ciclo automático, circuitos quânticos mais enxutos que os melhores já publicados, com 12 vezes menos portas num decodificador.

A Anthropic publicou, em 16 de outubro, um estudo em que o modelo Claude Mythos 5 desenhou circuitos quânticos mais eficientes do que os melhores projetos já divulgados em vários problemas. Segundo o post da Anthropic, em alguns casos a melhoria foi de uma ordem de grandeza ou mais. O trabalho foi liderado por Andi Gu, do programa de bolsistas STEM da empresa, com mentoria de Alek Kemeny e colaboração de pesquisadores de Harvard e da QuEra Computing. Há também um artigo completo no arXiv.
Não é uma notícia para quem usa IA só para escrever e-mails. Mas ela mostra uma direção concreta: modelos que não apenas respondem perguntas, e sim propõem soluções, recebem uma nota automática e se corrigem sozinhos por horas, com pouca ajuda humana.
Como o experimento foi montado
De acordo com a Anthropic, o Claude recebeu descrições em linguagem comum de oito tarefas de projeto de circuitos quânticos, além de um avaliador automático. Esse avaliador conferia se cada circuito proposto estava correto e atribuía uma pontuação baseada em qubits multiplicados por portas, uma medida aproximada do tempo de execução. As tarefas cobriam química, otimização, simulação quântica, teoria dos números e computação numérica.
O modelo escrevia o código em Python, rodava, via a nota e revisava o projeto numa repetição contínua, sem que uma pessoa interviesse entre as rodadas. Essa receita, uma tarefa com resposta que pode ser verificada por máquina, é a mesma que vem sendo usada para agentes de programação, e a própria Anthropic reconhece que ela funciona melhor em problemas em que a correção é fácil de checar.
O que o Claude encontrou
O primeiro resultado destacado é a adição de pontos em curvas elípticas, uma operação central em criptografia. Depois de uma execução de 53 horas, o Claude propôs uma forma reversível de calcular uma etapa chamada divsteps, um método de inversão modular, sem guardar o histórico de ramificações. Numa família de projetos nova, um desenho usa 12% mais qubits, mas 17 vezes menos portas que o menor projeto anterior.
O segundo resultado é um decodificador usado em interferometria quântica decodificada (DQI). O Claude trocou o algoritmo de Euclides estendido pelo de Berlekamp-Massey e passou a reconstruir valores temporários em vez de armazená-los. A contagem de portas caiu cerca de 12 vezes em relação à construção anterior do Google, e a necessidade de memória no pior caso baixou de 665 qubits para 19.
Para definir o tamanho do registro de valores guardados, o modelo rodou 403 milhões de decodificações de amostra num simulador rápido. Concluiu que um único valor (19 qubits) bastava, com cerca de uma falha a cada 10 mil execuções, dentro do limite de erro permitido.
Como o modelo trabalhou
No caso do divsteps, a Anthropic conta que o Claude demonstrou identidades algébricas novas, derivou uma regra para recuperar a informação de ramificação a partir dos próprios números, validou o resultado numericamente e o formalizou na linguagem Lean, usada para verificar provas matemáticas. Ou seja, o resultado não ficou só no “parece funcionar”: passou por uma checagem formal.
Os pesquisadores também pediram que o modelo desenvolvesse várias abordagens qualitativamente diferentes ao mesmo tempo. A Anthropic relata duas fraquezas. O Claude foi conservador demais, desconfiando de ganhos que já estavam bem comprovados e conferindo duas ou três vezes o mesmo resultado. E tendeu a preferir métodos conhecidos em vez de ideias novas, o que a equipe contornou com a exploração em paralelo e com lembretes ocasionais para ampliar a busca.
O que ainda não foi provado
É importante separar o que a empresa afirma do que o público costuma entender. O post lembra que as estimativas para simular a molécula FeMoco caíram de cerca de 50 trilhões de portas Toffoli, em 2017, para cerca de 340 milhões, uma redução de aproximadamente 150 mil vezes. Segundo a Anthropic, quase toda essa queda veio de muitos grupos de pesquisa ao longo de oito anos, e não do Claude.
Projetar circuitos também é só uma parte da construção de um computador quântico tolerante a falhas. Os autores sugerem que a IA poderia, no futuro, otimizar em conjunto correção de erros, decodificação e hardware, mas tratam isso como especulação. Os números são da própria Anthropic e de um artigo ainda em divulgação, então vale esperar a revisão de outros grupos antes de tratá-los como definitivos.
Os resultados vêm do relato da fabricante do modelo. Reduzir portas e qubits num projeto teórico não significa que exista um computador quântico pronto para rodar esses circuitos hoje.
Por que isso importa para você
Pouca gente no Brasil vai programar um computador quântico, mas o padrão por trás do estudo vale para qualquer trabalho com IA: quando existe um jeito automático de dizer se a resposta está certa, o modelo consegue iterar sozinho e chegar longe. É por isso que agentes de programação evoluem tão rápido, e é o caminho que tende a chegar a planilhas, relatórios e automações do dia a dia.
Na prática, para quem trabalha por conta própria ou toca um negócio, a lição é desenhar tarefas com um critério de conferência claro. Se você pede um relatório e define de antemão como checar números, fontes e formato, a ferramenta erra menos e você revisa mais rápido. Sem esse critério, o risco é o de sempre, que explicamos em como checar se a resposta da IA está certa.
Há ainda o recado de carreira. O modelo fez, em dias, um trabalho que normalmente ocuparia equipes de pesquisa por meses, mas dependeu de pessoas para formular o problema e interpretar o resultado. Esse é o desenho de futuro que já discutimos em como humanos e agentes de IA vão trabalhar juntos e em agentes de IA e o futuro do trabalho autônomo: quem sabe fazer a pergunta certa e validar a resposta ganha valor.
Um padrão que se repete na Anthropic
Esse não é o primeiro resultado científico recente atribuído à empresa. Na mesma semana, cobrimos como o Claude rastreou a origem das sementes das curvas NIST, um enigma de criptografia de décadas. Antes, a Anthropic já havia apresentado novas versões de seus modelos, como mostramos em o lançamento do Claude Fable 5.1 e Mythos 5.1.
O que une esses episódios é o mesmo método: dar ao modelo um problema difícil, um verificador automático e tempo para tentar. A empresa e seus concorrentes tendem a anunciar mais resultados desse tipo, porque são fáceis de medir e rendem manchetes.
O que observar daqui para frente
Três pontos merecem atenção. O primeiro é se outros grupos vão reproduzir os ganhos e confirmar as contagens de portas. O segundo é se a mesma abordagem aparece em produtos para o público, como agentes que revisam o próprio trabalho até passar numa checagem. O terceiro é o debate sobre criptografia: circuitos mais baratos para operações em curvas elípticas aproximam, em tese, o dia em que um computador quântico poderá quebrar esse tipo de proteção, o que reforça a discussão sobre migrar para criptografia resistente a ataques quânticos.
Por enquanto, não há mudança imediata para quem usa IA no trabalho. Mas o estudo é mais um indício de que a diferença entre ferramentas está migrando de “quem responde melhor” para “quem executa e se confere melhor”, e isso vale a pena acompanhar na hora de escolher onde investir seu tempo e seu dinheiro. Se está comparando assistentes, o guia ChatGPT, Claude ou Gemini: qual IA escolher ajuda a começar.
Post de pesquisa da Anthropic, Designing more efficient quantum circuits with Claude, de 16 de outubro de 2026, com artigo completo no arXiv (2610.22367).
Fonte original
Anthropic
anthropic.com
Perguntas frequentes

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.