Character.AI pede falência nos EUA e vende parte dos ativos à Disney
A Character.AI entrou com pedido de Chapter 11, vendeu parte dos ativos à Disney por US$ 20 milhões e avisa que a plataforma será encerrada se não houver oferta.

A Character.AI, plataforma que permite criar personagens de inteligência artificial e conversar com eles, entrou com pedido de recuperação judicial sob o Chapter 11, o capítulo da lei de falências dos Estados Unidos, depois de uma série de processos e de dificuldades para escalar o negócio. A informação é da TechCrunch, em texto assinado por Ivan Mehta e publicado nesta terça-feira (13). Segundo um documento da corte, a empresa declarou ativos e passivos entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões.
Junto com o pedido, a empresa acertou a venda de alguns ativos para a Disney por US$ 20 milhões e vai conceder à gigante do entretenimento uma licença perpétua e não exclusiva de sua tecnologia. Ex-funcionários da Character.AI que entraram na Disney no mês passado, junto com o ex-CEO Karandeep Singh Anand, vão prestar serviços de transição. A empresa continua operando durante o processo de venda, que deve terminar no fim de novembro ou no início de dezembro.
O que a empresa disse
O CEO atual, Colin Adams, afirmou que a companhia levou em conta "significativos obstáculos legais, regulatórios e operacionais" ao longo do último ano. Segundo ele, o conselho concluiu que um processo de venda supervisionado pela Justiça dá à empresa "a melhor oportunidade de maximizar valor para todas as partes interessadas".
Até a publicação da reportagem, não havia nenhuma oferta pelos ativos nem um comprador definido. Adams escreveu que, se nenhuma proposta chegar, "a plataforma será desativada". Ou seja, o futuro do serviço depende do resultado dessa venda nas próximas semanas.
Contexto: do ápice ao pedido de falência
De acordo com a TechCrunch, a Character.AI foi fundada no fim de 2021 por dois ex-engenheiros do Google, Noam Shazeer, coautor do artigo do Transformer, e Daniel De Freitas. No começo, o foco era treinar modelos de fundação e construir uma plataforma de personagens de IA personalizados.
A trajetória, conforme descrita pela reportagem, teve estes marcos:
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Fim de 2021 | Fundação por Noam Shazeer e Daniel De Freitas |
| Setembro de 2022 | Rodada de US$ 150 milhões e status de unicórnio; mais de 2 bilhões de mensagens trocadas com bots em cinco meses |
| Maio de 2023 | Mais de 1,7 milhão de instalações dos apps na primeira semana |
| Agosto de 2024 | Acordo de US$ 2,7 bilhões com o Google para licenciar os modelos; Shazeer e De Freitas voltam ao Google |
| Outubro de 2024 | 20 milhões de usuários ativos mensais |
| Junho de 2025 | Karandeep Singh Anand, ex-Brex e Meta, assume como CEO |
Quando fechou a rodada de 2022, segundo a reportagem, os usuários ativos passavam em média mais de duas horas por dia na plataforma. Após o acordo com o Google, o diretor jurídico (general counsel) Dominic Perella, virou CEO interino e a companhia deixou de treinar modelos de fundação para se concentrar em crescimento. Em termos de capital, a PitchBook indica que a Character.AI levantou mais de US$ 193 milhões em várias rodadas, com investidores como Lightspeed, SV Angel, Greycroft e a16z. A Sensor Tower chegou a colocar o app entre os que mais consomem tempo dos usuários.
Processos, investigação e mudanças de produto
A TechCrunch lembra que a empresa foi processada depois que um menino de 14 anos, da Flórida, morreu por suicídio. A mãe dele afirma que o adolescente ficou obcecado por um chatbot da plataforma. O Texas também abriu uma investigação para avaliar se o serviço cumpria as leis de privacidade e segurança infantil. A empresa, segundo o texto, depois fez acordo em alguns dos processos, adicionou recursos de segurança e proibiu menores de idade na plataforma.
Sob a gestão de Anand, a Character.AI incluiu geração de vídeo com IA e feeds sociais, além de formatos de narrativa interativa e microdramas, para aumentar o engajamento. Para a TechCrunch, a falência mostra que essas mudanças não tornaram a empresa sustentável. A reportagem também aponta que produtos de IA voltados ao consumidor são difíceis de escalar e de monetizar: mais engajamento eleva os custos de IA e aumenta a pressão para monetizar os usuários.
Por que isso importa para você
Mesmo sem nenhuma informação na reportagem sobre a situação no Brasil, o caso serve de alerta para qualquer pessoa que usa ou pensa em usar aplicativos de IA de companhia e de conversa. O primeiro ponto é de dependência: quem criou personagens, histórias e conversas numa plataforma depende de a empresa continuar existindo. Se a venda não acontecer, a própria Character.AI diz que o serviço será desativado.
O segundo ponto é de privacidade. Quando um serviço entra em processo de venda de ativos, é natural perguntar o que acontece com o que os usuários escreveram lá. A reportagem não trata desse tema, mas vale ler nosso guia sobre IA e privacidade: o que você entrega sem perceber e revisar o que você já compartilhou em qualquer chatbot.
O terceiro ponto é de escolha de ferramenta. Antes de apostar tempo e dados num app de IA, confira a saúde do negócio, as regras de segurança e a política de dados. Nosso checklist para escolher ferramenta de IA com segurança ajuda nisso, e a comparação ChatGPT, Claude ou Gemini mostra opções de empresas de outro porte. Se a sua intenção é montar um atendimento com chatbot, veja também como criar um chatbot de atendimento para o seu site sem programar e a diferença entre agente de IA, chatbot e automação.
Por fim, há uma lição de negócio. A história da Character.AI, com audiência enorme e muito tempo de uso, mostra que atenção não é o mesmo que receita. Para quem empreende com IA, vale olhar a conta: quanto custa atender cada usuário e quanto ele paga de volta. A própria TechCrunch destaca que custos de IA sobem junto com o engajamento.
O que observar a seguir
O primeiro marco é a janela de venda, prevista para terminar no fim de novembro ou no início de dezembro. Se aparecer um comprador, a plataforma pode continuar com outro dono. Se não aparecer nenhuma proposta, a empresa já avisou que o serviço será desativado.
Também vale acompanhar o papel da Disney, que fica com parte dos ativos e com uma licença perpétua e não exclusiva da tecnologia. A reportagem não detalha o que a Disney pretende fazer com isso, então qualquer plano por ora é só especulação. Outro ponto é como os processos e as investigações citadas seguem, já que a empresa afirmou ter encarado obstáculos legais e regulatórios no último ano.
Por fim, o caso reforça um debate maior sobre a segurança de chatbots usados por adolescentes. Acompanhe também a cobertura do Portal da AI sobre o mercado: veja, por exemplo, o que aconteceu com o financiamento bilionário da Anthropic e compare como empresas de IA têm sustentado seus custos. Quando houver novidade sobre o destino da Character.AI, atualizamos este assunto.
Fonte original: TechCrunch.
Fonte original
TechCrunch
techcrunch.com
Perguntas frequentes

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.