WhatsApp escondeu em suas páginas ordens para a IA não citar a LGPD
Levantamento da Redact achou 102 blocos de texto oculto em 80 páginas de ajuda do WhatsApp, com instruções ao chatbot de suporte. A empresa diz que foi um bug.

As páginas da central de ajuda do WhatsApp traziam, escondidas no código, instruções escritas para uma inteligência artificial ler e não para o usuário. Uma delas mandava o robô de suporte não citar a LGPD, o GDPR europeu nem autoridades de proteção de dados, mesmo quando a própria pessoa levantasse o assunto. O achado foi publicado em 19 de outubro pela Redact, empresa de ferramentas para apagar posts e mensagens antigas, em um relatório assinado pelo fundador Dan Saltman. Segundo a revista Wired, citada pela própria Redact, o WhatsApp respondeu que o texto era destinado ao seu chatbot de suporte e apareceu por causa de um bug, já corrigido.
A história chama atenção porque o WhatsApp é o principal canal de conversa de brasileiros e de milhões de pequenos negócios, e porque envolve duas coisas que costumam andar juntas hoje: atendimento automatizado por IA e dados pessoais. O caso mostra o que pode acontecer quando as regras internas de um robô de atendimento ficam diferentes do que a empresa diz publicamente.
O que a Redact encontrou
De acordo com o relatório, a Redact leu 545 páginas ligadas à central de ajuda do WhatsApp e às cópias salvas delas. Em 80 páginas havia texto oculto, somando 102 blocos. A maior parte era rotina: esclarecer termos, apontar outras páginas, lembrar o robô de dar certa informação. Alguns trechos protegiam o usuário, como a orientação de não sugerir que alguém informe uma idade falsa, de não recomendar desligar a verificação em duas etapas para resolver problema de login e de manter o histórico de uma conversa depois de golpe em grupo, porque apagar as mensagens destrói provas.
Outros trechos eram restritivos. Em casos de denúncia, o robô devia dizer que o assunto é tratado internamente e não dar mais detalhes. Para quem perdeu o acesso ao número, esperar seria a única resposta correta. A Redact também checou 300 páginas de ajuda do Facebook e do Instagram, que usam o mesmo sistema, e não encontrou notas parecidas.
As duas notas que causaram polêmica
A primeira ficava na página de exclusão de conta. Para quem não consegue apagar a conta pelo aplicativo, o texto oculto dizia ao robô que a conta seria removida automaticamente após 30 ou 120 dias de inatividade (365 nos Estados Unidos). Em seguida, vinha a ordem citada pela Redact: não recomendar contato com nenhuma autoridade de proteção de dados, órgão regulador ou autoridade de supervisão. Também proibia sugerir que o WhatsApp apagasse a conta manualmente ou que a pessoa usasse outro aparelho com número ativo.
A segunda ficava na área de denúncia e bloqueio e era acionada quando o usuário mencionasse ação judicial, advogado, tribunal ou litígio. Segundo a Redact, o bloco trazia sete instruções, entre elas não citar os termos de uso nem a política de privacidade, não discutir responsabilidade da empresa e não dar parecer jurídico. Uma delas pedia para não referenciar nem interpretar leis de proteção de dados, com exemplos que incluíam GDPR, LGPD e CCPA, mesmo que o usuário as trouxesse na conversa.
A Redact argumenta que isso contradiz a política de privacidade europeia do WhatsApp, em vigor desde 2 de julho de 2026, que diz que o usuário pode pedir a exclusão dos seus dados e reclamar à autoridade irlandesa de proteção de dados ou a outra autoridade competente. A empresa também faz questão de dizer que os direitos vêm da lei, e não do WhatsApp, e que as notas não os eliminam. Ela reconhece que há um motivo razoável para evitar parecer jurídico e para não confirmar a titularidade de uma conta sem o número de telefone, mas sustenta que citar um regulador ou uma lei não é dar aconselhamento jurídico.
Cronologia e a resposta do WhatsApp
Uma cópia do Internet Archive de 12 de julho de 2026 não tem a nota de exclusão de conta. Uma cópia de 4 de setembro já tem. A Redact viu o texto pela primeira vez em 8 de outubro, e as duas notas principais continuavam publicadas em 15 de outubro. Às 02h08 UTC de 18 de outubro, todos os 102 blocos tinham sumido das 80 páginas, que continuaram no ar.
Um detalhe técnico também pesa. Em teste de 9 de outubro, a Redact pediu as páginas se identificando como rastreadores do Google e do Bing, e os dois receberam as notas. Quando se identificou como rastreadores da OpenAI, da Anthropic e da Perplexity, recebeu a página sem o artigo e sem as notas. Isso não prova que algum assistente de IA tenha seguido as ordens escondidas, e a própria Redact admite que não testou isso.
O porta-voz do WhatsApp disse à Wired que o texto era para o chatbot de suporte da empresa e que apareceu por causa de um bug, já resolvido. Ele afirmou que a empresa quer seus robôs de suporte focados em dar o melhor conselho sobre o WhatsApp e sem oferecer aconselhamento jurídico. A resposta veio do WhatsApp, não de uma nota separada da Meta.
O que ainda não se sabe
A Redact faz questão de listar o que não sabe. O relatório leu as instruções do robô, não as respostas dele, então não é possível afirmar que o chatbot realmente deixou de citar reguladores ou leis. Também não se sabe por quanto tempo exatamente as notas ficaram no ar, se existiam em outros idiomas, incluindo o português, ou em páginas fora da central de ajuda. A empresa ainda declara um interesse comercial: vende ferramentas de exclusão em massa de contas e mensagens, o que vale ter em mente ao ler a análise. Por isso, o que há de verificável é o conteúdo das notas e a data em que sumiram, e não a intenção por trás delas.
Por que isso importa para você
Se você usa o WhatsApp para atender clientes e já automatizou parte da conversa, o caso é um lembrete de que o comportamento do seu robô depende de instruções que ficam fora da vista do cliente. Revise o que o seu agente pode ou não dizer, principalmente sobre dados pessoais, cancelamento e reclamação. Nosso guia de como automatizar atendimento no WhatsApp com IA mostra como montar o fluxo, e o texto sobre LGPD para pequeno negócio que usa IA traz um checklist do que você precisa conseguir responder quando um cliente pedir acesso ou exclusão de dados.
Como usuário, a lição é prática: se o suporte automático não resolver um problema com a sua conta ou os seus dados, você não depende dele. A LGPD garante o direito de pedir a eliminação de dados e de reclamar à Autoridade Nacional de Proteção de Dados, e é possível entender melhor como contestar uma decisão automatizada em decisão automatizada e LGPD: como pedir revisão de uma IA. Para quem quer saber o que entrega ao conversar com assistentes, vale ler IA e privacidade: o que você entrega sem perceber e Meta AI no WhatsApp: o que faz, privacidade e como usar.
Quem monta o próprio agente pode aproveitar a lição ao contrário: publique as regras do seu atendente automático de forma clara, evite instruções que contradigam a sua política de privacidade e deixe sempre um caminho para falar com uma pessoa. Para entender a diferença entre um robô de respostas prontas e um agente de verdade, veja agente de IA, chatbot ou automação: qual a diferença.
Segundo a Redact, 80 páginas de ajuda do WhatsApp tinham 102 blocos de texto oculto com ordens para um chatbot, incluindo não citar autoridades de dados nem leis como a LGPD. Os blocos sumiram em 18 de outubro. O WhatsApp diz que foi um bug e que as notas eram para o suporte automático. Não há prova de que o robô tenha seguido as ordens.
Fonte original
Redact
redact.dev
Perguntas frequentes

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.