Novo presidente do TSE aponta IA e desinformação como maior risco às eleições 2026
Em entrevista após a posse, Kassio Nunes Marques citou uso irregular de IA, desinformação e violência política de gênero como desafios centrais do pleito.
O ministro Kassio Nunes Marques, empossado presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta semana, afirmou em entrevista à SBT nesta sexta-feira (3) que o uso irregular de inteligência artificial e a desinformação são as maiores ameaças às eleições de 2026, acima até de riscos de interferência externa. Segundo reportagem do Poder360, o ministro listou "desinformação, uso irregular de inteligência artificial, violência política de gênero e abusos de propaganda" como os desafios mais urgentes do pleito que se aproxima.
Nunes Marques também anunciou uma nova medida de transparência no processo de votação: os dois últimos eleitores de cada seção serão convidados a testemunhar o fechamento da urna, para poder atestar que nenhum voto a mais foi registrado depois deles. O ministro disse ainda que sete delegações internacionais vão acompanhar a eleição como observadoras, entre elas União Europeia, Parlamento do Mercosul, Liga Árabe, Organização dos Estados Americanos (OEA), Uniore e a Rede Mundial de Justiça Eleitoral (RMJE).
Um ano de medidas do TSE contra uso indevido de IA
A fala de Nunes Marques chega depois de uma sequência de ações concretas da Justiça Eleitoral ao longo de 2026 para lidar com IA generativa nas eleições. Em setembro, o TSE já tinha proibido a publicação e o impulsionamento pago de novo conteúdo sintético sobre candidatos a partir de 1º de outubro, justamente para fechar a reta final da campanha sem vídeos ou áudios gerados por IA em circulação. Antes disso, o tribunal também tinha lançado o ChatVote, assistente de IA para tirar dúvidas sobre o pleito, numa tentativa de usar a própria tecnologia a favor do eleitor, em vez de só tentar conter seu uso malicioso.
O temor do TSE tem respaldo em iniciativas de verificação que já monitoram esse tipo de conteúdo desde o início do ano eleitoral, como mostrou a cobertura sobre a parceria entre projetos de checagem e o próprio tribunal para rastrear deepfakes circulando nas redes. A preocupação também não é exclusiva do Brasil: em outros países, autoridades eleitorais e de defesa do consumidor vêm relatando o mesmo padrão de golpes e desinformação construídos com ferramentas de IA generativa cada vez mais acessíveis e baratas.
Por que isso importa para você
Se você trabalha com marketing político, comunicação de campanha ou produção de conteúdo digital durante o período eleitoral, a fala do presidente do TSE funciona como um alerta direto: qualquer peça audiovisual envolvendo candidato ou pessoa pública, mesmo que pareça inofensiva ou satírica, corre risco real de enquadramento na proibição que já está em vigor desde 1º de outubro, com consequências que vão de remoção de conteúdo a multa. Vale revisar com cuidado qualquer material que use voz sintética, rosto gerado por IA ou qualquer tipo de manipulação de imagem antes de publicar, ainda que a intenção não seja enganar ninguém.
Para o eleitor comum, o recado é outro: desinformação construída com IA generativa tende a ficar mais sofisticada e mais barata de produzir à medida que a eleição se aproxima, o que exige redobrar a desconfiança em relação a vídeos, áudios e imagens que circulam em grupos de WhatsApp ou redes sociais sem fonte clara. Checar se o conteúdo vem de um canal oficial de candidato ou partido, e não só de um perfil anônimo compartilhando algo "viral", continua sendo a defesa mais simples e mais eficaz contra esse tipo de material.
O que observar daqui até a eleição
Com a posse de Nunes Marques, a gestão do TSE para o ciclo eleitoral de 2026 passa a ter como uma de suas bandeiras declaradas o combate ao uso indevido de IA, o que deve se traduzir em mais decisões monocráticas e normas específicas conforme casos concretos apareçam ao longo da campanha, como já aconteceu em outras eleições recentes em que o tribunal teve que normatizar situações não previstas originalmente na legislação eleitoral. Também vale acompanhar se a presença das sete delegações internacionais de observação vai gerar relatórios públicos comparando como o Brasil lida com desinformação gerada por IA em relação a outros países que já passaram por eleições neste mesmo ciclo global.
Outro ponto a observar é se o tribunal vai detalhar publicamente como pretende fiscalizar, na prática, a proibição de conteúdo sintético que já está em vigor, já que identificar com certeza se um vídeo ou áudio foi gerado ou alterado por IA ainda é tecnicamente desafiador mesmo para especialistas, como mostram ferramentas de detecção que a própria academia vem desenvolvendo, caso de um chip óptico da UCLA que identifica deepfake em vídeo com 98% de acerto. Enquanto esse tipo de solução não chega à fiscalização eleitoral brasileira em escala, a aposta do TSE segue sendo a combinação de regra clara, prazo curto de reação e parceria com plataformas e projetos de checagem de fatos.
Como funciona a fiscalização hoje, na prática
Diferente de um órgão regulador de tecnologia, o TSE não tem como varrer sozinho todo o volume de conteúdo que circula em redes sociais e aplicativos de mensagem durante a campanha. Na prática, a fiscalização depende de uma combinação de três frentes: denúncia de partidos e candidatos rivais, que têm interesse direto em apontar violação da regra eleitoral pela concorrência; parceria com as próprias plataformas, que já mantêm canais de notificação e remoção acelerada de conteúdo em período eleitoral desde ciclos anteriores; e projetos de checagem de fatos mantidos por veículos de imprensa e universidades, que monitoram peças suspeitas e repassam achados ao tribunal. Esse modelo já foi usado em eleições passadas para áudio manipulado e imagens editadas, e agora se estende para vídeo e voz gerados inteiramente por IA, categoria que exige análise técnica mais específica para comprovar a origem sintética do material.
A diferença nesta eleição é a escala do problema: ferramentas de geração de voz e vídeo que antes exigiam conhecimento técnico avançado hoje estão disponíveis em aplicativos de celular gratuitos ou baratos, o que multiplica o número de pessoas capazes de produzir uma peça de desinformação convincente sem qualquer treinamento especializado. É esse cenário que levou o TSE a tratar o tema como prioridade na comunicação do novo presidente logo na primeira entrevista depois da posse, em vez de deixar o assunto só para normas técnicas publicadas sem grande repercussão pública.
O que outros países estão fazendo diante do mesmo problema
O Brasil não enfrenta esse desafio isolado. Autoridades eleitorais em diversos países que já realizaram eleições neste ciclo relataram aumento no volume de conteúdo sintético envolvendo candidatos, o que tem levado comissões eleitorais a adotar regras parecidas com a brasileira: período de silêncio para novo conteúdo de IA perto da votação, obrigação de identificar materiais gerados artificialmente e canais de denúncia mais rápidos para remoção. A presença de sete delegações internacionais acompanhando o pleito brasileiro, incluindo representantes da União Europeia e da OEA, tende a funcionar também como troca de experiência: o Brasil leva ao debate internacional o que aprendeu com casos concretos de desinformação por IA em eleições municipais recentes, e pode voltar dessas interações com práticas testadas em outros contextos legais e culturais.
Esse intercâmbio importa porque a tecnologia por trás da desinformação é a mesma em qualquer país, mesmo que a legislação eleitoral varie bastante: um modelo de clonagem de voz ou geração de vídeo não tem fronteira, e golpes ou peças de desinformação testados em uma eleição em outro continente podem ser replicados aqui em poucas semanas, com adaptação mínima para o contexto local.
Kassio Nunes Marques, empossado presidente do TSE, disse nesta sexta-feira (3) que IA usada de forma irregular e desinformação são os maiores riscos às eleições de 2026, mais do que interferência externa. O tribunal já proíbe desde 1º de outubro novo conteúdo sintético sobre candidatos e vai contar com sete delegações internacionais de observação no pleito.
Fonte original
Poder360
poder360.com.br
Perguntas frequentes

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.