DeepSeek e Moonshot treinaram novos modelos com o GPT-6 Astra
Segundo a The Information, o Kimi K3.1 Pro e a versão atualizada do DeepSeek V4.1 Flash usaram muito o GPT-6 Astra da OpenAI no treino. Entenda o que muda.

Duas das empresas chinesas de IA que mais chamam atenção do mercado, a DeepSeek e a Moonshot AI, teriam usado de forma pesada o GPT-6 Astra, da OpenAI, para treinar os modelos que lançaram nas últimas semanas. A informação é do site The Information, que falou com pessoas com conhecimento direto do assunto e foi publicada na quarta-feira (28). O jornal de tecnologia The Next Web repercutiu a reportagem e deixou claro que não conseguiu confirmar o caso de forma independente, o que vale como ressalva para tudo o que se segue.
Os modelos citados são o Kimi K3.1 Pro, da Moonshot, lançado na semana passada, e uma versão atualizada do DeepSeek V4.1 Flash, que chegou em 17 de outubro. Ambos tiveram bons resultados nas avaliações divulgadas pelas próprias desenvolvedoras. A Moonshot afirma, por exemplo, que o Kimi K3.1 Pro superou o GPT-6 Astra em um teste de programação. Nenhum desses números foi verificado por avaliadores independentes até agora.
O que a reportagem afirma, e o que ainda não está provado
O ponto central é que as duas chinesas teriam se apoiado fortemente nas respostas de um modelo americano de ponta para ensinar os seus. Essa prática costuma ser chamada de destilação: em vez de aprender apenas com texto bruto da internet, o modelo novo aprende com as respostas de um modelo mais capaz, copiando boa parte do comportamento por uma fração do custo de pesquisa original.
É importante separar duas coisas. A reportagem é baseada em fontes anônimas e nem a DeepSeek nem a Moonshot, até onde a cobertura mostra, confirmaram o uso. Também não há, neste momento, uma decisão de tribunal ou de órgão regulador dizendo que algo ilegal aconteceu. O que existe é um relato jornalístico que, se confirmado, reforça uma suspeita antiga da indústria: a de que parte do avanço rápido dos modelos chineses vem de aprender com os modelos americanos.
Um histórico que já tinha acusações
Esta não é a primeira vez que a Moonshot aparece nesse tipo de história. Em 30 de setembro, a própria OpenAI disse que pessoas ligadas à desenvolvedora do Kimi tinham conduzido, em julho, uma campanha coordenada para extrair o raciocínio oculto por trás das respostas dos seus modelos. Nós cobrimos o caso na época, na notícia sobre a extração do raciocínio oculto do ChatGPT. Antes disso, a Anthropic já havia descrito, no seu relatório de uso indevido de setembro, outro episódio envolvendo a mesma empresa.
Do lado da DeepSeek, o V4.1 Flash foi apresentado como uma alternativa mais barata aos modelos americanos, tema que já tratamos em DeepSeek V4.1 Flash mantém o V4 Pro. O preço baixo é justamente o que torna o assunto sensível: se a economia vem, em parte, de aproveitar o trabalho caro de outro laboratório, o debate sobre concorrência justa ganha um novo capítulo.
Um dilema para os laboratórios americanos
A reportagem resume o problema com uma ideia simples: os mesmos modelos que os laboratórios oferecem aos usuários podem servir de material de treino para concorrentes que querem correr atrás. Quanto melhor o modelo e quanto mais aberto o acesso por API, mais fácil é coletar respostas em grande escala. Fechar a porta demais prejudica clientes legítimos; deixá-la aberta demais facilita a cópia.
Isso ajuda a explicar a pressão por controles mais rígidos de acesso, monitoramento de padrões suspeitos de uso e regras formais. No Congresso dos EUA, por exemplo, já houve cobrança por informações sobre espionagem e segurança envolvendo modelos chineses, como mostramos na notícia sobre o pedido do deputado Ro Khanna. Um relato como este tende a alimentar esse tipo de discussão.
Por que isso importa para você
Para quem usa IA no trabalho ou para empreender no Brasil, a notícia tem efeito prático indireto, mas real. Primeiro, ela mexe com preço. Modelos chineses baratos e capazes pressionam os preços de todo o mercado, e isso beneficia quem paga por API ou assinatura. Se a vantagem de custo depender de aprender com modelos americanos, uma restrição futura de acesso pode mudar essa equação e encarecer ferramentas que hoje parecem uma pechincha.
Segundo, ela mexe com risco. Quem constrói um produto ou um fluxo de trabalho em cima de um modelo precisa saber que o fornecedor pode ser alvo de bloqueios, disputas de propriedade intelectual ou restrições governamentais. Já houve restrição ao uso da DeepSeek em órgãos públicos dos EUA, e nada impede que empresas privadas tomem decisões parecidas. Se o seu negócio depende de um único fornecedor, vale ter um plano B testado, e o nosso guia como escolher uma ferramenta de IA com segurança ajuda a montar essa avaliação.
Terceiro, ela lembra que desempenho divulgado pela própria empresa não é o mesmo que desempenho comprovado. Tanto a Moonshot quanto a DeepSeek apresentaram resultados fortes, mas sem verificação independente. Antes de trocar a ferramenta que você usa por outra mais barata, teste com as suas tarefas reais, compare a qualidade das respostas e veja o que a empresa faz com os dados que você envia. Para uma comparação prática entre as opções mais conhecidas, veja também ChatGPT, Claude ou Gemini: qual IA escolher.
O que observar daqui para frente
Há alguns sinais a acompanhar nos próximos dias. O primeiro é se a OpenAI vai comentar publicamente o caso ou anunciar novas medidas de bloqueio, já que a empresa tem histórico de divulgar relatórios sobre abuso dos seus modelos. O segundo é se a DeepSeek ou a Moonshot vão responder, negando ou explicando como treinaram os modelos. O terceiro é se algum avaliador independente vai testar os dois modelos e mostrar se o desempenho se sustenta fora dos testes das próprias empresas.
Também vale ficar de olho em reações políticas. Qualquer relato de que modelos americanos alimentam o avanço chinês tende a ser usado por quem defende restrições mais duras de exportação e de acesso, e por quem prefere regras mais leves para não atrapalhar a indústria. Em ambos os casos, o resultado pode afetar o preço e a disponibilidade das ferramentas que chegam ao mercado brasileiro.
Por enquanto, o que se pode dizer com segurança é pouco: existe uma reportagem com fontes anônimas, duas empresas com resultados ainda não verificados e um histórico de acusações que torna o relato plausível, mas não comprovado. Tratar o caso com essa cautela evita tanto o alarmismo quanto a ingenuidade. Para o usuário comum, a recomendação é simples: acompanhe, não dependa de um fornecedor só e confira sempre o que cada ferramenta promete contra o que ela entrega.
Fonte original
The Next Web, The Information
thenextweb.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.