Big Techs cortam 83% da recompra de ações para bancar a IA
Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle devolveram só 9,3% do caixa a acionistas em 2026, o menor nível em 15 anos, segundo análise da Reuters.

As cinco maiores empresas de tecnologia que lideram a corrida da inteligência artificial passaram a devolver muito menos dinheiro aos próprios acionistas. Uma análise da Reuters sobre dados da LSEG e relatórios das companhias, publicada neste sábado (31) e resumida pelo The Next Web, mostra que Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle destinaram apenas 9,3% da geração de caixa a dividendos e recompra de ações nos primeiros nove meses de 2026. É a menor fatia em pelo menos 15 anos. No mesmo período do ano passado, o índice era de 27,4%.
A explicação é simples e está no mesmo levantamento: o dinheiro que antes voltava para quem tem ações está sendo usado para construir data centers, comprar chips e garantir energia para treinar e rodar modelos. A conta ainda não fecha para as cinco empresas juntas, e o detalhe mais incômodo é que o gasto passou a superar o que o negócio gera.
O que os números mostram
A recompra de ações, quando uma empresa usa caixa para comprar de volta os próprios papéis e reduzir o número de ações em circulação, despencou 83%. Foram US$ 13,6 bilhões nos nove primeiros meses de 2026, contra US$ 81,8 bilhões um ano antes. Os dividendos subiram um pouco, de US$ 33,9 bilhões para US$ 37 bilhões. Somando as duas coisas, as cinco companhias distribuíram US$ 50,6 bilhões, o que corresponde aos 9,3% do caixa gerado.
Alphabet e Meta não recompraram nenhuma ação neste ano. Nos nove primeiros meses de 2025, as duas haviam gastado US$ 66,5 bilhões juntas nessa frente. A Amazon segue sem pagar dividendos e não faz recompra desde 2022. A Microsoft, que ainda mantém o programa, reduziu o valor trimestral de US$ 5,7 bilhões para US$ 4,4 bilhões no trimestre encerrado em setembro.
O gasto em IA passou o caixa que as empresas geram
O fluxo de caixa operacional combinado das cinco subiu 29% e chegou a um recorde de US$ 542,9 bilhões. Só que o investimento em capital, que inclui data centers, servidores e chips, dobrou para US$ 556,9 bilhões. Pela primeira vez na série de dados que começa em 2011, o investimento ficou acima do caixa gerado pela operação.
O resultado é um fluxo de caixa livre negativo em US$ 14 bilhões, uma virada enorme em relação ao superávit de US$ 143,5 bilhões de um ano antes. Como as empresas continuaram pagando dividendos e fazendo alguma recompra, os US$ 50,6 bilhões distribuídos saíram de reservas, de dívida nova ou de venda de ações. A reportagem cita dois exemplos: a Amazon levantou US$ 48,1 bilhões em dívida de longo prazo no terceiro trimestre, e a Alphabet captou cerca de US$ 12,4 bilhões com venda de ações e US$ 29 bilhões em dívida.
Por que as empresas aceitam esse custo
A tese que sustenta a mudança é a de que o retorno virá depois. O CEO da Amazon, Andy Jassy, afirmou que a empresa enxerga um caminho claro para retornos atraentes e que gastará ainda mais em 2027, como já mostramos em a previsão de Jassy de que a AWS será um negócio de US$ 1 trilhão. A Oracle, por sua vez, fixou uma meta de US$ 30 bilhões em fluxo de caixa livre até 2029, o que dá uma ideia de quanto tempo a própria empresa espera levar até o caixa se recuperar.
O compromisso é de longo prazo. A Reuters calcula que as cinco companhias somam mais de US$ 3 trilhões em compromissos de construção de infraestrutura de IA. Parte do financiamento vem de formas pouco convencionais, como a possibilidade de a Amazon tomar até US$ 80 bilhões emprestados usando o próprio hardware de IA como garantia.
Uma mudança de postura que o mercado estranha
Durante cerca de 15 anos, essas empresas se acostumaram a devolver o excesso de capital aos acionistas por dividendos e recompras. Ehren Stanhope, da Franklin Templeton, resumiu o ponto à Reuters: nos últimos 15 anos, as companhias devolveram cada vez mais capital excedente dessa forma. A recompra tem um efeito prático nos balanços, porque diminui o número de ações e aumenta o lucro por ação. Segundo o ING, citado na análise, a Alphabet reduziu o total de ações em 9,5% entre o fim de 2020 e 2025, o que somou cerca de 2% ao ano ao lucro por ação.
Sem esse empurrão, o lucro por ação passa a depender só do crescimento do negócio. É por isso que a pergunta de quando a IA vai dar retorno ficou tão sensível. Nesta semana, o mercado já reagiu com nervosismo, como relatamos em a queda de 2,9% do Nasdaq, e investidores têm demonstrado menos apetite por apostas gigantes, como no caso da OpenAI, que levantou só US$ 11 bilhões dos US$ 30 bilhões buscados.
O que a análise não diz
Vale separar fato de interpretação. Os números de recompra, dividendos, caixa e investimento vêm da análise da Reuters com dados da LSEG, e o Portal da AI os conferiu na reprodução feita pelo The Next Web, sem acesso à íntegra da agência. A leitura de que o dinheiro foi redirecionado para a IA é a explicação central do levantamento, mas as empresas não comentaram, nessa matéria, cada decisão de alocação de capital. A Nvidia, que não faz parte do grupo analisado, segue em direção oposta, e o contraste aparece em o programa recorde de recompra de US$ 150 bilhões da fabricante de chips.
Por que isso importa para você
Parece um assunto de Wall Street, mas ele chega ao dia a dia de quem usa IA para trabalhar ou empreender. As empresas que fornecem as ferramentas que você paga, de assistentes de código a ferramentas de escritório, estão apostando mais caixa do que ganham para construir capacidade. Se o retorno demorar, a pressão para cobrar mais, limitar o uso gratuito e criar planos mais caros tende a aumentar. Isso já aparece em mudanças de limite e de preço que acompanhamos nas últimas semanas.
Na prática, três cuidados valem a pena. Primeiro, não monte um negócio inteiro dependente do preço atual de uma única ferramenta: guarde uma folga no orçamento para reajustes. Segundo, teste alternativas, inclusive modelos abertos ou mais baratos, para poder trocar de fornecedor sem refazer tudo. Terceiro, acompanhe os balanços do setor: quando as grandes empresas começam a falar em disciplina de gastos, isso costuma se refletir em planos, limites e prazos de lançamento que afetam quem usa as ferramentas.
Para quem investe, o recado é parecido. Parte do valor das grandes empresas de tecnologia hoje depende de uma aposta em retornos futuros da IA, e não mais em devolução de dinheiro aos acionistas. Isso não significa que a aposta vá dar errado, mas muda o tipo de risco. Quem aplica em fundos que carregam essas ações precisa saber que o caixa não está sobrando como antes, e que o resultado vai depender de a demanda por IA crescer no ritmo que as empresas estão assumindo.
Do ponto de vista de quem presta serviço, o cenário também pede cautela e preparo. Clientes de empresas grandes costumam sentir primeiro quando os fornecedores de nuvem apertam condições, e isso pode virar contratos mais curtos ou exigência de comprovar retorno. Quem já usa IA para entregar mais rápido tem argumentos para mostrar valor, e isso vale ouro quando o orçamento de tecnologia passa a ser cobrado com mais rigor.
Fonte original
Reuters, The Next Web
thenextweb.com

Quem escreveu
Bruno Danello
Editor e fundador do Portal da AI
Bruno Danello é o criador do Portal da AI e do projeto Vocação de Pai. Escreve todos os dias sobre como pessoas comuns podem entender, usar e ganhar dinheiro com inteligência artificial, sem jargão técnico e com exemplos reais.